{"id":12890,"date":"2016-01-21T23:36:48","date_gmt":"2016-01-21T23:36:48","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=12890"},"modified":"2016-01-21T23:36:48","modified_gmt":"2016-01-21T23:36:48","slug":"o-peso-das-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=12890","title":{"rendered":"O peso das palavras"},"content":{"rendered":"<p>Reza o ditado que h\u00e1 tr\u00eas coisas que n\u00e3o voltam atr\u00e1s: a flecha lan\u00e7ada, a palavra dita e o tempo perdido.<\/p>\n<p>\u00c9 cultural, temos o h\u00e1bito do diz que disse. Mas ser\u00e1 que alguma vez par\u00e1mos para pensar no que acontece quando falamos sobre algo ou algu\u00e9m que n\u00e3o conhecemos? Ou mesmo sobre algu\u00e9m que conhecemos, \u00e9 um facto. Quando propagamos hist\u00f3rias que n\u00e3o vivemos ou testemunh\u00e1mos? Ser\u00e1 que alguma vez consider\u00e1mos as consequ\u00eancias que esse acto, que parece inocente e simples, pode causar?<\/p>\n<p>Uma mentira repetida muitas vezes passa a tornar-se verdade. A imagem que temos sobre uma pessoa ou um acontecimento \u00e9 automaticamente moldada pela informa\u00e7\u00e3o que temos sobre ambos. Ou pela informa\u00e7\u00e3o que nos d\u00e3o. Ou lemos. E em que acreditamos, muitas vezes sem questionar. \u00c9 esse o\u00a0peso das palavras.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que h\u00e1 v\u00e1rios n\u00edveis da chamada \u201cfofoca\u201d, as personalidades p\u00fablicas sofrem bastante com elas, mas tamb\u00e9m no nosso pequeno mundo h\u00e1 efeitos. Se as nossas crian\u00e7as nos ouvem falar sobre algu\u00e9m v\u00e3o apreender o que estamos a dizer. \u00c9 bom que o que estamos a dizer seja verdade. E seja apropriado para os seus ouvidos. Porque eles imitam o que ouvem e o que v\u00eam fazer. E ser\u00e3o eles a espalhar o que ouviram ou simplesmente a ter uma imagem sobre algu\u00e9m baseada naquilo que lhes disseram. E mais crescidos falar\u00e3o sobre isso, espalhar\u00e3o factos e n\u00e3o-factos com a facilidade de um sopro.\u00a0\u00c9 esse o\u00a0peso das palavras.<\/p>\n<p>N\u00e3o o fazemos por mal, mas faz\u00eamo-lo. O meu pai costumava perguntar, quando nos via a falar de algu\u00e9m: estavas l\u00e1? Ouviste? Viste? Ent\u00e3o n\u00e3o fales.<\/p>\n<p>Como sempre estava certo.<\/p>\n<p>J\u00e1 tive a oportunidade de ver de perto o que o diz que disse pode fazer a uma pessoa. Pessoa essa perfeitamente correcta, capaz, profissionalmente exemplar, mas sobre quem se tinha vindo a passar, \u00e0 boca pequena, hist\u00f3rias sobre uma reuni\u00e3o em que tinham sido ditas \u201ccoisas\u201d. Eu estava l\u00e1. Vi em primeira m\u00e3o e sei o tom, sei o que foi dito e o que provocou o que foi dito, qual foi a resposta que foi dada. O que saiu c\u00e1 para fora foi apenas uma das partes. Descontextualizada. Que condenou a pessoa em causa a ser desconsiderada profissionalmente com base em informa\u00e7\u00f5es que ningu\u00e9m se deu ao trabalho de confirmar. E na maior parte dos casos \u00e9 isso que acontece.\u00a0\u00c9 esse o\u00a0peso das palavras.<\/p>\n<p>Fala-se muito de bullying e ele existe em todo o lado e \u00e9 perpetrado de v\u00e1rias formas. Hoje falamos sobre o filho de algu\u00e9m, amanh\u00e3 poder\u00e1 ser o nosso filho a v\u00edtima do falat\u00f3rio. Pelos motivos mais simples, ou por motivos mais complexos.<\/p>\n<p>Quando andava na escola secund\u00e1ria houve um caso de uma rapariga que se zangou com a melhor amiga. Esta decidiu vingar-se dela e criou um perfil falso numa rede social da \u00e9poca, com fotos impr\u00f3prias (outra coisa que devemos, at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o, ensinar os nossos filhos a n\u00e3o fazer, a saberem proteger-se), que era alimentado com mentiras, em que a v\u00edtima era ofendida e ofendia os outros. A rapariga teve uma depress\u00e3o, deixou de aparecer na escola, teve de ter acompanhamento para voltar a sair de casa sem se sentir um alvo. Sem se sentir completamente invadida. Sem se sentir maltratada. Hoje, mais de dez anos depois, acredito que ainda deve lutar contra esses dem\u00f3nios. N\u00e3o deve conseguir confiar em ningu\u00e9m \u00e0 primeira. E se a primeira pessoa que teve acesso ao perfil falso o tivesse denunciado para que fosse apagado nada disto teria acontecido. Mas a corrente foi alimentada, foram partilhadas as fotografias, foi-se espalhando o terror.<\/p>\n<p>Se ensinarmos as nossas crian\u00e7as a pensarem antes de falar, a medirem as consequ\u00eancias do que dizem e fazem, a falarem verdade, a questionarem o que ouvem, teremos um mundo melhor. Mas teremos n\u00f3s, pais, de aprender a faz\u00ea-lo tamb\u00e9m, para o podermos ensinar convenientemente.<\/p>\n<p>O diz que disse \u00e9 cultural.<\/p>\n<p>Ir\u00e1 sempre existir.<\/p>\n<p>At\u00e9 ao dia\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">imagem@weheartit<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reza o ditado que h\u00e1 tr\u00eas coisas que n\u00e3o voltam atr\u00e1s: a flecha lan\u00e7ada, a palavra dita e o tempo perdido. \u00c9 cultural, temos o h\u00e1bito do diz que disse. Mas ser\u00e1 que alguma vez par\u00e1mos para pensar no que acontece quando falamos sobre algo ou algu\u00e9m que n\u00e3o conhecemos? 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