{"id":12696,"date":"2016-01-14T20:00:48","date_gmt":"2016-01-14T20:00:48","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=12696"},"modified":"2016-01-14T20:00:48","modified_gmt":"2016-01-14T20:00:48","slug":"notas-sobre-a-depressao-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=12696","title":{"rendered":"Notas sobre a Depress\u00e3o Infantil"},"content":{"rendered":"<p>Existem in\u00fameros momentos no desenvolvimento ps\u00edquico de uma crian\u00e7a que deslumbram os adultos e d\u00e3o conta da complexidade da mente infantil. Argumentavelmente, um dos momentos mais interessantes \u00e9 quando a crian\u00e7a adquire a capacidade de mentir e omitir.<\/p>\n<p>Na mentira a crian\u00e7a encontra um escape da realidade por via da express\u00e3o do desejo: <em>&#8216;o meu pai construiu esta ponte&#8217;<\/em>. Outras vezes evita o desprazer de ser castigado: &#8216;<em>n\u00e3o, n\u00e3o fui eu que fiz<\/em>&#8216;.<\/p>\n<p>Ainda outras vezes vemos as crian\u00e7as completamente silenciosas (que o adulto sabe que bom sinal n\u00e3o ser\u00e1). Em princ\u00edpio a omiss\u00e3o ser\u00e1 uma forma espec\u00edfica de mentira, ao servi\u00e7o do evitamento do desprazer.<\/p>\n<p>Digo que estes fen\u00f3menos s\u00e3o, argumentavelmente, importantes n\u00e3o s\u00f3 porque assim podemos observar o desenvolvimento da moralidade na crian\u00e7a, mas sobretudo porque trata-se um marco importante da distin\u00e7\u00e3o entre o &#8216;eu&#8217; e o &#8216;n\u00e3o-eu&#8217;.<\/p>\n<p>Se esta diferencia\u00e7\u00e3o n\u00e3o existisse n\u00e3o haveria prop\u00f3sito na mentira, nem tampouco na omiss\u00e3o, uma vez que o outro, magicamente, fusionalmente, simbioticamente saberia no que estou a pensar.<\/p>\n<p>Relembro o t\u00edtulo de uma importante obra do fil\u00f3sofo franc\u00eas Paul Ricoeur: o si-mesmo como um outro. Neste trabalho o autor mostra, \u00e0 boa maneira estruturalista, como o &#8216;eu&#8217; pode ser compreendido com um &#8216;outro&#8217;.<\/p>\n<p>Obtemos assim a possibilidade de mentir de n\u00f3s-para-n\u00f3s. Certos pensamentos e sentimentos que acabam por ser negados, escotomizados, recalcados, reprimidos (esquecidos) ou projectados. Isto \u00e9 muito evidente na cl\u00ednica do adulto, mas torna-se particularmente transparente na cl\u00ednica infantil.<\/p>\n<p><strong>Quais as consequ\u00eancias desta mentira\/nega\u00e7\u00e3o? Como se comporta ent\u00e3o uma crian\u00e7a deprimida?<\/strong> Se est\u00e1 \u00e0 espera de manifesta\u00e7\u00f5es depressivas como as encontramos no adulto desengane-se. Em termos bioqu\u00edmicos trata-se do mesmo padr\u00e3o, o substrato org\u00e2nico mant\u00e9m-se, mas o padr\u00e3o comportamental n\u00e3o, porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Antes de avan\u00e7armos para as possibilidades cl\u00ednicas da depress\u00e3o infantil, gostaria que o leitor reflectisse sobre as fun\u00e7\u00f5es da depressividade.<\/p>\n<p><strong>Porque deprimimos\/entristecermos?<\/strong> A vis\u00e3o p\u00f3s-moderna e materialista da depress\u00e3o entende-a como um erro, um desiquilibrio (neuroqu\u00edmico), um estorvo. Mas se a capacidade de entristecer \u00e9 comum \u00e0 esp\u00e9cie humana (a psicologia comparativa e etologia acrescentariam ao mundo animal) n\u00e3o estaremos a falar de algo que faz parte da pr\u00f3pria natureza (pelo menos) humana? Em termos darwinianos, porque raio \u00e9 que est\u00e1 caracter\u00edstica ter\u00e1 sido seleccionada naturalmente?<\/p>\n<p>Talvez o g\u00e9nio e o estilo peculiar do psiquiatra e psicanalistas Ant\u00f3nio Coimbra de Matos nos ajude a clarificar pelo menos uma das fun\u00e7\u00f5es da depress\u00e3o, a saber: tratar dos lixos t\u00f3xicos. Restituiu-se assim o verdadeiro estatuto funcional da &#8216;depress\u00e3o&#8217;.<\/p>\n<p>A depress\u00e3o, bem como as suas caracter\u00edsticas (no adulto) &#8211; como s\u00e3o a lentifica\u00e7\u00e3o, a in\u00e9rcia, a introspec\u00e7\u00e3o e a introvers\u00e3o &#8211; t\u00eam, neste sentido, um significado quase digestivo, aplicado \u00e0 mente. O indiv\u00edduo rumina, mastiga, digere, elabora sobre epis\u00f3dios dif\u00edceis. No adulto, e de forma simplista\/linear, assumimos que algum epis\u00f3dio despertou ou precipitou no sujeito um estado depressivo (reactivo) que tem por fun\u00e7\u00e3o &#8216;tratar o lixo t\u00f3xico&#8217;.<\/p>\n<p>No adulto este esquema torna-se poss\u00edvel porque tem acesso a um sistema simb\u00f3lico evolu\u00eddo (digestivo) &#8211; a linguagem &#8211; e pode fazer tentativas de atribui\u00e7\u00e3o de significado aos acontecimentos depressivos. A crian\u00e7a n\u00e3o tem a mesma sorte&#8230;<\/p>\n<p>Mesmo nos casos onde observamos uma boa capacidade de articula\u00e7\u00e3o e de racioc\u00ednio verbal (na crian\u00e7a) a capacidade de atribui\u00e7\u00e3o de significado est\u00e1 comprometida, at\u00e9 porque, n\u00e3o raras vezes, o que o deprime \u00e9 o que faz parte do seu contexto mais pr\u00f3ximo &#8211; a fam\u00edlia &#8211; e a crian\u00e7a, diferentemente do adulto, n\u00e3o lhe pode fugir nem fazer frente. Pode ent\u00e3o mentir de si-para-si e de si-para-o-outro&#8230; negando, recalcando, reprimindo, projectando&#8230;<\/p>\n<p><strong>Neste sentido as manifesta\u00e7\u00f5es mais t\u00edpicas de depress\u00e3o na inf\u00e2ncia n\u00e3o passam pela vis\u00e3o cl\u00e1ssica &#8211; deitar-se na cama com estores fechados a chorar sem querer ver ningu\u00e9m.<\/strong><\/p>\n<p>A vis\u00e3o mais cl\u00e1ssica da depress\u00e3o da inf\u00e2ncia, na realidade \u00e9 contr\u00e1ria e extremamente diversificada: <strong>agita\u00e7\u00e3o muito intensa, dificuldade em manter a aten\u00e7\u00e3o (combina\u00e7\u00e3o explosiva que a psiquiatria e psicologia moderna gostam de rotular de <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/saude-e-bem-estar\/defice-de-atencao-ou-perturbacao-da-concentracao\/\">hiperactividade com d\u00e9fice de aten\u00e7\u00e3o<\/a>), comportamentos de oposi\u00e7\u00e3o, irritabilidade, delinqu\u00eancia, debilidade cognitiva, confabula\u00e7\u00f5es, somatiza\u00e7\u00f5es, ins\u00f3nias, terrores nocturnos, <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/saude-e-bem-estar\/xixi-na-cama-o-que-os-pais-podem-fazer\/\">enurese<\/a>&#8230;<\/strong> Enfim, poder-se-\u00e0 afirmar que as manifesta\u00e7\u00f5es da depressividade na crian\u00e7a apanham todo o espectro conhecido da psicopatologia. Dito de outro modo, \u00e9 como se as manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas fossem constru\u00e7\u00f5es em cima da depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Dada a sua diversidade n\u00e3o \u00e9 de espantar que, ao olhar do adulto, a depress\u00e3o infantil passe despercebida, muda, amorda\u00e7ada pelos sintomas sat\u00e9lite que orbitam \u00e0 sua volta. E assim se fecha o ciclo depressivo retornando \u00e0 solid\u00e3o n\u00e3o-vista e n\u00e3o-sentida.<\/p>\n<p>Dr. F\u00e1bio Ver\u00edssimo Mateus<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>imagem@canonistas<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem in\u00fameros momentos no desenvolvimento ps\u00edquico de uma crian\u00e7a que deslumbram os adultos e d\u00e3o conta da complexidade da mente infantil. Argumentavelmente, um dos momentos mais interessantes \u00e9 quando a crian\u00e7a adquire a capacidade de mentir e omitir. 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