{"id":12275,"date":"2015-12-01T15:33:31","date_gmt":"2015-12-01T15:33:31","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=12275"},"modified":"2015-12-01T15:33:31","modified_gmt":"2015-12-01T15:33:31","slug":"o-ensino-esta-todo-errado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=12275","title":{"rendered":"O ensino est\u00e1 todo errado"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;No liceu fui sempre um aluno razo\u00e1vel \u2013 nunca fui um aluno extraordin\u00e1rio. Estive sempre na Turma A (a dos melhores alunos) e nunca chumbei um ano. Mas tamb\u00e9m nunca fui o melhor da turma, longe disso, nem nunca tive essa ambi\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Estudava o suficiente para ter notas entre o 12 e o 14. S\u00f3 excecionalmente chegava ao 16. Mas tamb\u00e9m era raro ter menos de 10.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Devo confessar que a maioria das aulas n\u00e3o me interessava nada. Era um sacrif\u00edcio suportar os 50 minutos que duravam e um al\u00edvio quando ouvia a campainha que assinalava o intervalo. E o que aprendia nos livros, nas v\u00e9speras das provas ou dos exames, tamb\u00e9m raramente me entusiasmava.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Eu estudava basicamente para passar de ano e n\u00e3o para aprender.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o percebia por que se estudavam certas mat\u00e9rias \u2013 e ainda hoje n\u00e3o percebo, porque nunca me fizeram falta nenhuma.<\/em><\/p>\n<p><em>Para que me serviu aprender as equa\u00e7\u00f5es de 2.\u00ba e 3.\u00ba grau, ou os integrais, na matem\u00e1tica? Ou saber resolver aqueles problemas complicad\u00edssimos na f\u00edsica ou na qu\u00edmica? E a gram\u00e1tica? Para qu\u00ea saber identificar o sujeito e o predicado e o nome predicativo do sujeito? Nunca soube isto. Sempre ignorei a gram\u00e1tica. Mas isso n\u00e3o me impediu de ser bom aluno a portugu\u00eas, desforrando-me na reda\u00e7\u00e3o e na interpreta\u00e7\u00e3o, provando que a gram\u00e1tica n\u00e3o fazia falta nenhuma.<\/em><\/p>\n<p><em>Inversamente, hoje percebo como \u00e9 importante saber hist\u00f3ria, e gostaria de saber mais do que sei. Hist\u00f3ria universal e hist\u00f3ria de Portugal. Como \u00e9 importante saber geografia, conhecer o mapa-mundo e certos fen\u00f3menos da atmosfera. Idem no que respeita \u00e0 zoologia, \u00e0 bot\u00e2nica e \u00e0 geologia: \u00e9 importante conhecer os animais, as plantas e os minerais.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas tudo isto era ensinado de uma forma enfadonha, sem vida, que tornava a aprendizagem uma chatice.<\/em><\/p>\n<p><em>Ali\u00e1s, h\u00e1 uma coisa b\u00e1sica no ensino que nunca se fez: motivar os alunos para aprender.<\/em><\/p>\n<p><em>Dou um exemplo.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando dei aulas no Centro de Forma\u00e7\u00e3o da RTP, nos anos 70, apareceram por l\u00e1 uns n\u00f3rdicos que tinham o seguinte m\u00e9todo de ensino: punham c\u00e2maras nas m\u00e3os das pessoas e mandavam-nas para a rua filmar. As pessoas n\u00e3o sabiam para que serviam os bot\u00f5es, nem como se focava, nem como se enquadrava, mas iam experimentando e tentando perceber como aquilo funcionava. Ora, quando chegavam \u00e0s aulas e o professor explicava o funcionamento da c\u00e2mara, os alunos eram verdadeiras esponjas \u2013 porque estavam a ouvir as respostas para as dificuldades que tinham sentido. E nunca mais esqueciam as explica\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>Todos n\u00f3s j\u00e1 pass\u00e1mos por situa\u00e7\u00f5es parecidas. Quando vamos buscar um carro novo ao stand, o vendedor d\u00e1-nos montes de explica\u00e7\u00f5es \u2013 sobre o r\u00e1dio, o GPS, as variad\u00edssimas fun\u00e7\u00f5es, os programas autom\u00e1ticos, a abertura do capot, etc. \u2013 mas quando pegamos no carro e come\u00e7amos a andar j\u00e1 n\u00e3o nos lembramos de metade das explica\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>Por\u00e9m, se uns dias depois voltarmos ao stand e o vendedor repetir a li\u00e7\u00e3o, absorvemos tudo \u2013 porque estamos a obter respostas para aquilo que n\u00e3o conseguimos fazer.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>O ensino devia ser assim: haver um per\u00edodo de prepara\u00e7\u00e3o para aprender. As aulas seriam muito mais produtivas, os alunos perceberiam o porqu\u00ea de estarem a aprender certas mat\u00e9rias.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 no ensino coisas que se ensinam a mais e outras que se ensinam a menos. Talvez n\u00e3o acreditem, mas no curso de Arquitetura n\u00e3o havia nenhuma cadeira sobre a hist\u00f3ria da arquitetura portuguesa. Ou seja: n\u00f3s, jovens candidatos a arquitetos, n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma ideia sobre a arquitetura que se fazia em Portugal nem sobre a sua evolu\u00e7\u00e3o ao longo do tempo. Como n\u00e3o havia visitas a obras nem a ateli\u00eas de arquitetos. E, no entanto, aprend\u00edamos pormenores \u00ednfimos sobre maneiras de construir na Idade M\u00e9dia.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Julgo tamb\u00e9m que deveria haver uma muito maior articula\u00e7\u00e3o entre a escola e a vida.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Nos dias de hoje h\u00e1 muita gente a viver sozinha. E j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 \u2018criadas de servir\u2019, como havia no passado. Ent\u00e3o, por que n\u00e3o incluir no ensino aulas de culin\u00e1ria, no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de cozinha? Seria util\u00edssimo para todos. E n\u00e3o seria bom conhecermos melhor o funcionamento das casas que habitamos? Havendo cada vez menos gente para fazer certos servi\u00e7os, por que n\u00e3o ensinar aos alunos no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de trabalhos dom\u00e9sticos: como arranjar uma torneira, como usar um berbequim, como pendurar um quadro, como consertar uma tomada el\u00e9trica, etc.? Ao longo da vida todos poderiam experimentar a utilidade destes ensinamentos. Tal como certas no\u00e7\u00f5es de bricolage.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>E conselhos de alimenta\u00e7\u00e3o. Ou no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de economia: juros, impostos, d\u00edvida soberana, infla\u00e7\u00e3o, balan\u00e7a comercial, etc . Estamos constantemente a ouvir estes palavr\u00f5es na TV; ora, n\u00e3o seria mais \u00fatil aprender isto do que as equa\u00e7\u00f5es de 2.\u00ba e 3.\u00ba grau?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Finalmente, h\u00e1 uma disciplina que deveria ser enormemente valorizada: o desenho. Em certas situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 mais importante saber desenhar do que saber escrever. Quantas vezes j\u00e1 n\u00e3o ouvimos dizer: \u00abEu desenho muito mal, mas vou tentar&#8230;\u00bb? Saber exprimir ideias atrav\u00e9s de desenhos e outros elementos gr\u00e1ficos valoriza imenso a capacidade de comunica\u00e7\u00e3o de uma pessoa.<\/em><\/p>\n<p><em>Em abono do atual ensino, diz-se que muitas destas coisas que aprendemos e nunca voltamos a usar s\u00e3o importantes porque d\u00e3o \u2018gin\u00e1stica mental\u2019. Discordo. As outras coisas que aprend\u00eassemos em vez destas tamb\u00e9m dariam essa gin\u00e1stica, com a vantagem de adquirirmos conhecimentos que se encaixariam na vida quotidiana e que estar\u00edamos sempre a usar.<\/em><\/p>\n<p><em>Um ensino mais ligado \u00e0 vida, em que os alunos percebessem a utilidade do que est\u00e3o a aprender e fossem previamente estimulados para absorver, que lhes desse compet\u00eancias m\u00ednimas para seguir uma especializa\u00e7\u00e3o profissional mas tamb\u00e9m para funcionarem melhor no quotidiano, para serem mais auto-suficientes, menos dependentes, seria muito mais \u00fatil e motivador.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas caminhamos em sentido contr\u00e1rio. A introdu\u00e7\u00e3o do computador na escola, por exemplo, parecendo um avan\u00e7o, \u00e9 um disparate \u2013 como explicava um dia destes Castro Caldas no SOL. H\u00e1 certas zonas do c\u00e9rebro que, quando n\u00e3o se desenvolvem na altura pr\u00f3pria, morrem. Os jovens, com as calculadoras e os computadores, qualquer dia n\u00e3o sabem fazer de cabe\u00e7a contas b\u00e1sicas de somar e dividir.<\/em><\/p>\n<p><em>Ora saber a tabuada \u00e9 uma daquelas coisas de que se percebe imediatamente a utilidade.<\/em><\/p>\n<p><em>Todos os dias, quando vamos ao restaurante com colegas ou amigos e temos de dividir a conta, recorremos \u00e0 cabe\u00e7a para fazer o c\u00e1lculo \u2013 e constatamos a import\u00e2ncia de saber de cor a tabuada.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>\u00c9 isto que se pede ao ensino: dar ao n\u00edvel b\u00e1sico conhecimentos que estejamos constantemente a utilizar, que nos permitam agir melhor e compreender melhor a realidade em que vivemos.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Depois, cada um desenvolver\u00e1 esses conhecimentos de acordo com as suas capacidades, ambi\u00e7\u00f5es e prefer\u00eancias.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Por\u00a0<a href=\"http:\/\/sol.pt\/RedeSOL\/Autores\/?autor=Jos%C3%A9%20Ant%C3%B3nio%20Cabrita\" target=\"_top\" rel=\"noopener noreferrer\">Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Cabrita<\/a>,\u00a0<a href=\"mailto:jas@sol.pt\">jas@sol.pt<\/a>, publicado no <a href=\"http:\/\/sol.pt\/noticia\/481319?source=social#close\">Sol<\/a>, a <em>19.11.2015<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">imagem@cdn2.bmag<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;No liceu fui sempre um aluno razo\u00e1vel \u2013 nunca fui um aluno extraordin\u00e1rio. 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