{"id":11510,"date":"2015-10-09T11:21:20","date_gmt":"2015-10-09T10:21:20","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=11510"},"modified":"2015-10-09T11:21:20","modified_gmt":"2015-10-09T10:21:20","slug":"a-nossa-familia-nao-vem-no-catalogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=11510","title":{"rendered":"A nossa fam\u00edlia n\u00e3o vem no cat\u00e1logo."},"content":{"rendered":"<p>Todos catalogamos pessoas ou situa\u00e7\u00f5es na nossa vida, desde\u00a0pessoas que conhecemos e nos damos no dia-a-dia, como verdadeiros amigos e fam\u00edlia. H\u00e1 os amigos e depois os conhecidos; h\u00e1 gente porreira e gente chata; aqueles a quem sorrimos, mas rezamos a todos os santos n\u00e3o os reencontrar na pr\u00f3xima ida ao supermercado ou quando vamos buscar os nossos filhos \u00e0 escola. Catalogamos rela\u00e7\u00f5es amorosas desde\u00a0aquelas que gostar\u00edamos que se repetissem uma vez terminadas, \u00e0s\u00a0\u2018<em>love is in the air\u2019,<\/em>\u00a0para nojo dos solteiros \u00e0 sua volta.\u00a0Depois, h\u00e1 as rela\u00e7\u00f5es &#8211;\u00a0\u2018<em>onde \u00e9 que eu tinha a cabe\u00e7a<\/em>\u2019 &#8211; e a \u2018<em>credo Nossa Senhora de F\u00e1tima\u2019 &#8211;\u00a0<\/em>\u00a0acho que\u00a0sabem do que estou a falar.<\/p>\n<p>Depois temos, e \u00e9 onde\u00a0quero chegar, o catalogar a\u00a0fam\u00edlia. Hoje em dia existe diferentes tipos de fam\u00edlia, e \u00e9 importante para cada uma delas, estar catalogada. porqu\u00ea? Porque n\u00e3o estando parece um tipo de fam\u00edlia incompreendido, n\u00e3o aceite e at\u00e9 marginalizado. Seria como n\u00e3o pertencer a grupo nenhum!<br \/>\nQuando era mi\u00fada havia a fam\u00edlia nuclear. Pergunto eu,\u00a0ora quem teve a brilhante ideia de lhe dar este nome? (eu sei que tem a ver com n\u00facleo e tal&#8230;.). Mas eu associo mais a bomba! <strong>Bomba:<\/strong> tens que ter um pai, depois uma m\u00e3e, depois um ou dois irm\u00e3os, e com sorte e tal como nos desenhos dos livros da escola prim\u00e1ria da altura, havia ainda tamb\u00e9m dois pares de av\u00f3s com ar fim do s\u00e9culo dezanove. Porque o av\u00f4 era sempre careca e a av\u00f3 tinha sempre um novelo de l\u00e3 com agulhas espetadas no cabelo (n\u00e3o me perguntem!).<\/p>\n<p>Conforme fomos crescendo, habituamo-nos a ver cada vez mais\u00a0separa\u00e7\u00f5es e div\u00f3rcios.\u00a0Mas, e quanto \u00e0s fam\u00edlias compostas por\u00a0m\u00e3es ou pais solteiros e a sua prole? Bem, essas n\u00e3o existiam oficialmente. Para\u00a0mim, que cresci com\u00a0\u00a0av\u00f3s divorciados\u00a0e\u00a0uma av\u00f3 super independente, isto era uma realidade. Mas s\u00f3 quando eu pr\u00f3pria me tornei m\u00e3e \u00e9 que comecei a olhar para esta realidade de outra forma.<\/p>\n<p><strong>Agora temos um nome, somos fam\u00edlias monoparentais! Mas isto irrita-me imenso, porque quando ou\u00e7o as fam\u00edlias do mesmo sexo serem chamadas de fam\u00edlias Arco-Iris ou\u00a0<em>Rainbow Families<\/em>\u00a0fico com uma inveja dif\u00edcil de controlar&#8230; existe nome mais bonito?<\/strong> Sen\u00e3o vejamos: temos a fam\u00edlia \u2018nuclear\u2019 que j\u00e1 n\u00e3o \u2018bomba\u2019 tanto como antigamente; depois temos as fam\u00edlias do cora\u00e7\u00e3o (outra que me d\u00e1 dores de cotovelo); depois temos as fam\u00edlias numerosas, que s\u00e3o, bem\u2026numerosas! E n\u00f3s? As fam\u00edlias de pais solteiros? M\u00e3es e pais solteiros com filhos a seu cargo? Sim, porque as m\u00e3es solteiras que n\u00e3o t\u00eam os filhos consigo, s\u00e3o\u2026m\u00e3es desnaturadas? E os pais solteiros que t\u00eam os filhos a cargo da m\u00e3e s\u00e3o o qu\u00ea? Pais, s\u00f3 pais. N\u00e3o querendo entrar muito pela discuss\u00e3o sobre g\u00e9nero, a verdade \u00e9 que as fam\u00edlias monoparentais s\u00e3o olhadas hoje com alguma compaix\u00e3o <em>\u2018for\u00e7a, deve ser duro!\u2019<\/em> seguido daquela express\u00e3o de l\u00e1bios virados para baixo e olhos de peixe mal morto.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, n\u00e3o estou a exagerar. Mesmo tendo havido evolu\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o querendo dizer menorizar as dificuldades, para alguns de n\u00f3s o papel dos dois pais est\u00e1 somente num par de ombros. Mas esta compaix\u00e3o ou mesmo pena, que ainda hoje se v\u00ea pela m\u00e3e solteira ou pelo pai solteiro, embora de formas diferentes, n\u00e3o ajuda em nada \u00e0 independ\u00eancia e afirma\u00e7\u00e3o destes pais.<\/p>\n<p>Um pai solteiro \u00e9 um coitado, porque a \u2018gaja\u2019 n\u00e3o quis ter nada a ver com a crian\u00e7a e \u00e9 uma m\u00e3e desnaturada e ele coitado \u2018teve\u2019 que ficar com as crian\u00e7as. O que n\u00e3o est\u00e1 aqui latente neste tipo de atitudes e afirma\u00e7\u00f5es \u00e9 que hoje apesar dos pap\u00e9is terem-se alterado de forma dr\u00e1stica, a verdade \u00e9 que a sociedade em geral ainda n\u00e3o assimilou o que isso implica.<\/p>\n<p>A mulher ganhou maior import\u00e2ncia no mercado de trabalho, embora ainda esteja a lutar por equidade de sal\u00e1rio. Por outro lado, o homem desenvolveu ao longo do tempo, sendo ainda uma minoria em pa\u00edses como Portugal, um lado mais \u2018maternal\u2019 no sentido \u2018antropol\u00f3gico\u2019, mais virado para a fam\u00edlia e para o lar em geral, e ainda bem. Contudo, estas mudan\u00e7as n\u00e3o alteram, em nada, a forma como, ainda, s\u00e3o vistas\u00a0as m\u00e3es solteiras, muitas vezes rotuladas de &#8220;as coitadas&#8221; ou &#8220;sacrificadas&#8221;.<\/p>\n<p>Assim que engravidei assumi de imediato esse papel \u2018na boa\u2019.\u00a0 Talvez porque dentro de mim havia e h\u00e1 pouco espa\u00e7o para preconceito em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo, e as m\u00e3es solteiras, para mim, s\u00e3o simplesmente m\u00e3es independentes. O facto de estar solteira ou n\u00e3o, pode mudificar de um dia para o outro, apenas depende da fase da vida da pessoa. No entanto, tinha na verdade tamb\u00e9m uma imagem rom\u00e2ntica deste meu novo papel chamando-o de uma forma quase <em>hipster<\/em>\u00a0de \u2018reprodu\u00e7\u00e3o independente\u2019 quando era mesmo somente mais uma M\u00e3e Solteira, simples. Mas logo logo percebi que n\u00e3o era assim que a maior parte das pessoas me olhariam, mesmo as mais viajadas, mesmo as com mais n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o, mesmo as outras m\u00e3es solteiras!<\/p>\n<p>Um dos primeiros impactos veio de uma secret\u00e1ria de um Embaixador \u00c1rabe em Lisboa de quem sou amiga, que depois de me dar os parab\u00e9ns me disse <em>\u2019tamb\u00e9m tenho uma irm\u00e3 m\u00e3e solteira\u2026o mi\u00fado anda num psic\u00f3logo<\/em>!\u2019 a conversa depois da\u00ed continuou deprim\u00eancia abaixo, mas eu segui em frente. Isto depois do pr\u00f3prio Embaixador me ter perguntado \u2018<em>que boas not\u00edcias minha querida S\u00f3nia! E quem plantou nesse lindo Jardim?<\/em>\u2019 &#8230;a s\u00e9rio, foi assim mesmo que me perguntou. Como \u00e9 \u00c1rabe e para quem conhece poesia \u00c1rabe, sabe que este sentido n\u00e3o \u00e9\u00a0o mesmo que poderia ser se fosse numa qualquer can\u00e7\u00e3o popular Portuguesa. N\u00e3o levei a mal, mas daria um excelente verso de m\u00fasica pimba, n\u00e3o acham? Melhor do que a tal Sopeira que tem um filho de quem ningu\u00e9m sabe quem \u00e9 o pai, pois \u00e9\u00a0essa can\u00e7\u00e3o mesmo que representa bem como a sociedade nos v\u00ea em\u00a0Portugal, Sopeiras! &#8211; Seja l\u00e1 o que isto significa!<\/p>\n<p>Numa outra situa\u00e7\u00e3o, num almo\u00e7o em que junto com os meus pais anunciei a gravidez a uma parte da fam\u00edlia, uma tia afirmou depois de um longo sil\u00eancio <em>\u2018Os filhos de m\u00e3es solteiros s\u00e3o criados de qualquer maneira!<\/em>\u2019 Disse isto, algu\u00e9m com um casamento para l\u00e1 de Bagdade? N\u00e3o querendo entrar em detalhes, mas as piores afirma\u00e7\u00f5es vieram sempre de pessoas com casamentos ou relacionamentos desfeitos, alcoolismo, filhos com problemas graves de falta de aten\u00e7\u00e3o e por vezes de \u00a0amor devido \u00e0 aten\u00e7\u00e3o em demasia dos pais em \u2018segurar\u2019 algo que nunca funcionou, estando os filhos no meio de uma guerra que n\u00e3o \u00e9 a deles.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m h\u00e1 a ignor\u00e2ncia pura, como notei em duas situa\u00e7\u00f5es com colegas de trabalho, pessoas viajadas e formadas mas que pelos vistos com \u2018bagagem\u2019 n\u00e3o processada. Uma colega e eu fomos almo\u00e7ar a uma restaurante\u00a0<em>chique<\/em>\u00a0de Lisboa, depois de uma viagem de trabalho que ambas fizemos \u00e0 Eti\u00f3pia, est\u00e1vamos a falar de trabalho, relacionamentos fam\u00edlia etc.,e eu disse <em>\u2018como sou m\u00e3e solteira\u2019&#8230;<\/em>\u00a0(tentava explicar o desafio que \u00e9 para mim aceitar algumas miss\u00f5es em certos pa\u00edses e negar outras com mais risco) quando me interrompeu rapidamente <em>\u2018fala mais baixo, porque podem ouvir e depois o que v\u00e3o pensar?!<\/em>\u2019 ao que eu respondi <em>\u2018v\u00e3o pensar que sou\u2026m\u00e3e solteira! Em Portugal n\u00e3o sou apedrejada descansa!\u2019<\/em> e n\u00e3o, n\u00e3o estava a falar com amigas Afeg\u00e3s ou Iemenitas. Era mesmo uma amiga Portuguesa!<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a narrativa \u00e0 volta das m\u00e3es solteiras \u00e9 sempre a mesma, de alguma admira\u00e7\u00e3o, porque s\u00f3s \u2018<em>carregamos uma grande fardo<\/em>\u2019 e por isso merecemos a compaix\u00e3o alheia. Fardo? Pe\u00e7o desculpa mas um filho n\u00e3o \u00e9 fardo nenhum. Sim, nem sempre \u00e9 f\u00e1cil, principalmente no caso das \u2018puristas\u2019 como eu e que desde logo assumimos este projecto maravilhoso sozinhas onde n\u00e3o h\u00e1 dois sal\u00e1rios, duas opini\u00f5es, duas solu\u00e7\u00f5es para problemas que v\u00e3o surgindo entre outros desafios. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 dilemas, n\u00e3o querendo advogar este tipo de vida, \u00a0at\u00e9 porque acredito na diversidade. Mas a verdade \u00e9 que, se h\u00e1 sin\u00f3nimo do resultado do tipo de educa\u00e7\u00e3o da minha filha, s\u00e3o os relat\u00f3rios que dizem uns atr\u00e1s dos outros: \u2019\u00c9 uma crian\u00e7a muito equilibrada, respons\u00e1vel, respeitadora do outro e da diferen\u00e7a\u2019 tudo porque aqui n\u00e3o h\u00e1 guerras entre pais ou dilemas semelhantes.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, as piores inimigas destas m\u00e3es, s\u00e3o de facto as pr\u00f3prias m\u00e3es solteiras que se colocam quase sempre como a v\u00edtima. Se pensam que o meu caminho tem sido f\u00e1cil, est\u00e3o muito enganados, e n\u00e3o falo do alto de um castelo perfeito. Longe disso, mas acredito mesmo que quando nos colocamos na posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima dependente da benevol\u00eancia ou bom senso do outro pai \u00a0ou m\u00e3e, vamos criar crian\u00e7as que v\u00e3o acreditar que por terem sido criados por pais solteiros, lhes faltou sempre algo, que s\u00e3o v\u00edtimas tamb\u00e9m. N\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o. S\u00f3 o s\u00e3o se o permitirem. Colocar a crian\u00e7a em primeiro lugar, n\u00e3o significa comprar-lhe as melhores sapatilhas do mercado enquanto a m\u00e3e poupa naquilo que compra para si, significa sim criar os nossos filhos com amor, claro, mas principalmente fortalecendo a sua personalidade com <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/educacao\/10-dicas-para-criar-criancas-e-adolescentes-resilientes\/\">resili\u00eancia<\/a> e car\u00e1cter na diversidade e na vida respeitando o outro e sabendo que n\u00e3o existe nem a perfei\u00e7\u00e3o nem o ideal.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque hoje em dia a sociedade \u00e9 uma sociedade arco-\u00edris!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por S\u00f3nia Pereira de Figueiredo,\u00a0originalmente escrito para o <a href=\"http:\/\/amniotico.blogspot.pt\/2015\/04\/milagres-diarios-daily-miracles-23365.html\">Blog Amniotico<\/a><br \/>\nsugerido para\u00a0\u00a0Up To Kids\u00ae<\/p>\n<p>Todos os direitos reservados<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos catalogamos pessoas ou situa\u00e7\u00f5es na nossa vida, desde\u00a0pessoas que conhecemos e nos damos no dia-a-dia, como verdadeiros amigos e fam\u00edlia. 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