{"id":10760,"date":"2015-08-25T11:13:08","date_gmt":"2015-08-25T11:13:08","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=10760"},"modified":"2015-08-25T11:13:08","modified_gmt":"2015-08-25T11:13:08","slug":"maes-a-obra-uma-carreira-chamada-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=10760","title":{"rendered":"M\u00e3es \u00e0 obra# Uma carreira chamada vida"},"content":{"rendered":"<p>Lembro\u00ad-me bem da minha primeira entrevista. A primeira. De todas. Esquecendo aqueles\u00a0trabalhos pontuais, em \u00e9pocas de f\u00e9rias (quem quero enganar?&#8230; eram sempre na sapataria do\u00a0meu pai&#8230;) a minha primeira experi\u00eancia em lides de apresenta\u00e7\u00e3o de mim mesma ( vim para\u00a0esta \u00e1rea porque entendo que \u00e9 uma \u00e1rea de futuro; sim, estou \u00e0 procura mas atualmente n\u00e3o\u00a0estou em nenhum processo de recrutamento; tempos livres? Sair com amigos, ler&#8230; ) foi na\u00a0empresa onde fiz o meu est\u00e1gio profissional: uma multinacional do setor autom\u00f3vel, daquelas de\u00a0engolir em seco e agradecer ao universo inteiro pela sorte que se teve em se ser selecionada\u00a0para uma empresa daquela envergadura.<\/p>\n<p>Fui muito feliz no meu est\u00e1gio: a equipa era constitu\u00edda maioritariamente por homens: mec\u00e2nicos\u00a0autom\u00f3veis, eletricistas autom\u00f3veis, vendedores de autom\u00f3veis, rececionistas de oficina, o meu\u00a0chefe&#8230; N\u00e3o vacilei com a minha vergonha de inadaptada, nem eles me deixaram ficar de bra\u00e7os\u00a0cruzados: ensinaram tudo o que era poss\u00edvel uma mi\u00fada aprender sobre carros para al\u00e9m de\u00a0terem rodas e um autorr\u00e1dio. No final dos meses, recebia um cheque; fotocopiei o primeiro e\u00a0guardei a c\u00f3pia com carinho. E, a partir da\u00ed, nunca mais parei.<\/p>\n<p>Atualmente, isso das novas experi\u00eancias profissionais (as entrevistas, as avalia\u00e7\u00f5es de\u00a0desempenho, os despedimentos, as despedidas, as mudan\u00e7as de empresas, de locais, de\u00a0pessoas, de rotinas e de destinos) j\u00e1 faz parte do meu percurso e da carreira que escolhi.<\/p>\n<p>Paralelamente, o Mundo ofereceu-\u00adme, tamb\u00e9m, uma vida pessoal (a conquista mais dif\u00edcil): um\u00a0marido, um filho e uma casa. Recentemente descobri um bloco de notas da \u00e9poca do est\u00e1gio: um\u00a0pequeno apontamento que n\u00e3o era mais que uma compila\u00e7\u00e3o de algo como <em>Onde Quero Estar\u00a0Daqui 10 Anos<\/em>. Ia estar em todo o lado: em c\u00e1lculo mais ou menos rigoroso, previa, aos meus 30\u00a0anos, uma carreira estonteante \u2013 a um n\u00edvel de Cristiano Ronaldo. Devia falar at\u00e9 de viagens que\u00a0j\u00e1 teria feito, provavelmente quase todas as capitais do Mundo, umas tantas de introspe\u00e7\u00e3o (ou\u00a0n\u00e3o&#8230; bom, n\u00e3o me lembro, mas duvido que os meus 19 ou 20 anos quisessem conhecer o\u00a0Tibete). Lembro-\u00adme de ter sorrido, de ter enfiado o bloco ao bolso e nunca mais o ler. N\u00e3o me\u00a0recordo particularmente o que dizia mas, definitivamente, a mulher que, dez anos depois, queria\u00a0ser, n\u00e3o se tornou no que dizia a carta.<\/p>\n<p>Como eu, tantas outras mulheres da minha gera\u00e7\u00e3o: as que trabalham 12 horas por dia, muitas\u00a0vezes sem sa\u00edrem do mesmo ponto onde iniciaram, anos e anos seguidos. As com experi\u00eancias\u00a0demasiado curtas para perceberem se \u00e9 isso que querem ou o suficiente para n\u00e3o quererem ficar\u00a0mais um dia. As carreiras da rotatividade. Ou at\u00e9 as carreiras que atiramos \u00e0s urtigas para ir\u00a0plantar feij\u00f5es ou fazer sacos de sarapilheira. Tamb\u00e9m eu, um dia, dei o salto: larguei tudo para ir\u00a0trabalhar para um horto voluntariamente. N\u00e3o ganhava um tost\u00e3o e era a mulher mais feliz do\u00a0Mundo.<br \/>\nVoltei porque a vida assim me exigiu.<\/p>\n<p>Porque fui m\u00e3e. Aceitei. Retomei.<\/p>\n<p>Sei que, na \u00e9poca em que vivemos, falar de oportunidades de carreira \u00e9 um tema delicado: se j\u00e1\u00a0\u00e9 dif\u00edcil uma oportunidade de trabalho, como se pode falar em carreira? \u00c9 importante, contudo,\u00a0ressalvar dois aspetos: o conceito de percurso profissional dos nossos pais ou at\u00e9 dos nossos\u00a0irm\u00e3os mais velhos (a gera\u00e7\u00e3o imediatamente anterior \u00e0 minha, os que nasceram nos finais de\u00a060, in\u00edcios de 70 do s\u00e9culo passado) n\u00e3o \u00e9 o mesmo que agora. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por precaridade e\u00a0falta de empregabilidade; se calhar essa causa at\u00e9 est\u00e1 na cauda. \u00c9 uma quest\u00e3o de sociedade,\u00a0cultural e estatut\u00e1ria: os nossos pais trabalham mais anos, sendo que alguns cargos para\u00a0progress\u00e3o ficam estanques por mais tempo; a otimiza\u00e7\u00e3o dos sistemas efetivamente existe e\u00a0retira tarefas e responsabilidades, por vezes, de um inteiro posto de trabalho; o mercado est\u00e1\u00a0altamente expandido com centenas de milhares de empresas por atividades, quer seja a n\u00edvel\u00a0singular, quer seja a n\u00edvel coletivo; somos um n\u00famero cada vez maior de cidad\u00e3os ativos:\u00a0precisamos de trabalhar e seguir caminho. N\u00e3o podemos descorar o que existe mas tamb\u00e9m \u00e9\u00a0importante n\u00e3o deixar de viver por isso. Sei bem que pode parecer um clich\u00e9 mas, em boa\u00a0verdade, \u00e9 mesmo isto que acontece.<\/p>\n<p>E eu s\u00f3 descobri essa realidade depois de ter sido m\u00e3e. Deixemos de lado os lacinhos e o eu\u00a0<em>olho para ele e fico embebecida de amor<\/em> ou <em>n\u00e3o h\u00e1 cheirinho como o da nuca dele<\/em>&#8230; \u00c9 claro que\u00a0\u00e9 isso que d\u00e1 cor a quem ama a maternidade&#8230; Mas n\u00e3o \u00e9 o que move. A capacidade de rasgar o\u00a0bloco das dez m\u00e1ximas para os pr\u00f3ximos dez anos est\u00e1 ligada \u00fanica e exclusivamente \u00e0 vontade\u00a0de se estar totalmente ao lado de quem se gosta; e, sem rodeios afirmo que \u00e9 absolutamente\u00a0imposs\u00edvel esconder a um filho aquilo que somos. N\u00e3o entremos em camuflagens: \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Deixa, ent\u00e3o, nesse primeiro instante da consci\u00eancia maternal, de fazer sentido levar trabalho\u00a0para casa (o mental, porque o f\u00edsico, por vezes, temos de levar com ele no port\u00e1til), atender\u00a0permanentemente os telefones p\u00f3s hor\u00e1rio laboral ou at\u00e9 aceitar todos os convites para festas\u00a0com colegas de trabalho.<br \/>\nFecha-\u00adse a porta do escrit\u00f3rio e abrem-\u00adse os bra\u00e7os em casa.<br \/>\nPara\u00a0mim foi esta a po\u00e7\u00e3o m\u00e1gica; curiosamente foi o elixir que me trouxe a oportunidade de trabalho\u00a0que mais gostei at\u00e9 agora. Ao n\u00e3o contrariar o que sinto, ao aceitar as limita\u00e7\u00f5es e ao viver\u00a0intensamente a minha profiss\u00e3o fora de casa e a minha maternidade dentro da mesma, faz-\u00adme\u00a0sentir completa e realizada \u2013 pelo menos para j\u00e1.<\/p>\n<p>Claro que todos n\u00f3s devemos encontrar esse mesmo equilibro, sejamos pais, m\u00e3es, solteiros,\u00a0vi\u00favos, sem filhos, sem sobrinhos. As rela\u00e7\u00f5es sociais (os nossos amigos, a nossa fam\u00edlia, as\u00a0nossas atividades para l\u00e1 do escrit\u00f3rio) s\u00e3o t\u00e3o fundamentais como angariar dinheiro: o homem \u00e9\u00a0um animal de h\u00e1bitos e de proximidade grupal. N\u00e3o chega estourar toda a energia em tempo de\u00a0trabalho se n\u00e3o se reserva em igual medida para uma sa\u00edda com amigos, um passeio no parque\u00a0com os filhos, uma ida \u00e0 praia com o namorado, ou at\u00e9 uma tarde inteira connosco pr\u00f3prios a\u00a0fazer rigorosamente&#8230; nada. N\u00e3o adianta acreditar que uma coisa substitui a outra. As\u00a0alternativas t\u00eam de existir e t\u00eam de ser rigorosas: continuar o treino funcional todas as ter\u00e7as e\u00a0quintas; terminar o livro que tanto estavas a gostar; n\u00e3o arranjar desculpa para n\u00e3o ires ao jantar\u00a0das colegas da faculdade (a n\u00e3o ser que n\u00e3o te apete\u00e7a mesmo aturar essas chatas). Faz o pino,\u00a0solta \u00e0 corda, cria as tuas pr\u00f3prias metodologias e planeamentos: mas n\u00e3o deixes de ser\u00a0rigorosa para ti mesmo e vive para al\u00e9m da carreira. <strong>E aceitar \u2013 t\u00e3o, mas t\u00e3o importante \u2013 que a\u00a0realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 no caminho, n\u00e3o na chegada.<\/strong> Foi exatamente quando aceitei a amplitude (e\u00a0limita\u00e7\u00f5es) do meu ser que entendi, efetivamente, a cl\u00e1ssica frase do Senhor Conf\u00facio: <em>Escolhe\u00a0um trabalho que amas e n\u00e3o ter\u00e1s que trabalhar um \u00fanico dia na tua vida.<\/em><\/p>\n<p>Que assim continue.<\/p>\n<p>Por Sofia Cruz, para Up To Kids\u00ae<br \/>\nTodos os direitos reservados<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #808080;\">imagem@evolllution.com<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro\u00ad-me bem da minha primeira entrevista. A primeira. De todas. 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