{"id":10333,"date":"2015-07-25T10:22:04","date_gmt":"2015-07-25T10:22:04","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=10333"},"modified":"2015-07-25T10:22:04","modified_gmt":"2015-07-25T10:22:04","slug":"impactos-da-doenca-cronica-na-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=10333","title":{"rendered":"Impactos da doen\u00e7a cr\u00f3nica na crian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Quando o corpo se torna um lugar de sofrimento<\/p>\n<p>A doen\u00e7a cr\u00f3nica na crian\u00e7a traz altera\u00e7\u00f5es no dia-a-dia, com repercuss\u00f5es psicol\u00f3gicas como:\u00a0ang\u00fastia, sentimento de anormalidade em rela\u00e7\u00e3o a outras crian\u00e7as, culpa sobre os pais, ou\u00a0mesmo depress\u00e3o. Com efeito, toda a doen\u00e7a cr\u00f3nica, na crian\u00e7a ou no adulto, coloca\u00a0quest\u00f5es psicol\u00f3gicas importantes que influenciam e tamb\u00e9m s\u00e3o influenciadas pelo som\u00e1tico\u00a0(corpo).<\/p>\n<p>Na doen\u00e7a cr\u00f3nica o corpo torna-se lugar de sofrimento e menos de prazer. \u00c9 objecto de\u00a0preocupa\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia constantes que implicam altera\u00e7\u00f5es de h\u00e1bitos quotidianos e de\u00a0qualidade de vida, impacto financeiro, social, escolar, ocupacional e, mais ansiog\u00e9nico,\u00a0emin\u00eancia de morte.<\/p>\n<p><strong>Aquando do diagn\u00f3stico da doen\u00e7a, as crian\u00e7as podem ter diferentes reac\u00e7\u00f5es:<br \/>\n<\/strong>&#8211; dissociam-se da doen\u00e7a no seu conjunto;<br \/>\n&#8211; dissociam-se do que est\u00e1 doente no seu corpo;<br \/>\n&#8211; revoltam-se contra a situa\u00e7\u00e3o que est\u00e3o a viver e recusam os cuidados (muitas vezes, em\u00a0nega\u00e7\u00e3o do seu estado de sa\u00fade);<br \/>\n&#8211; recebem a terap\u00eautica passivamente, refugiando-se at\u00e9 no sono e mesmo na falta de ac\u00e7\u00e3o;<br \/>\n&#8211; tornam-se mais dependentes dos pais e dos t\u00e9cnicos de sa\u00fade;<br \/>\n&#8211; assumem a doen\u00e7a, integrando tanto as causas como os efeitos e o respectivo tratamento.<\/p>\n<p>O que de um modo geral se acaba por verificar \u00e9 que todos estes mecanismos de defesa ou\u00a0estrat\u00e9gias tendem a atenuar-se aos poucos e estas crian\u00e7as acabam por encontrar um\u00a0equil\u00edbrio entre a aceita\u00e7\u00e3o do seu estado inevit\u00e1vel e a adapta\u00e7\u00e3o (o menos dependente\u00a0poss\u00edvel), a um elemento novo.<\/p>\n<p><strong>Em termos cognitivos e afectivos verifica-se tamb\u00e9m empobrecimento da capacidade\u00a0imaginativa e intelectualidade mais diminu\u00edda, o que deriva essencialmente de:<\/strong><br \/>\n-maior agressividade e depend\u00eancia por desejo de retorno \u00e0 figura materna;<br \/>\n&#8211; a figura masculina (habitualmente identificada com a autoridade) tende a causar maior\u00a0ansiedade e inibi\u00e7\u00e3o na crian\u00e7a;<br \/>\n&#8211; rela\u00e7\u00e3o menos concisa com a imagem corporal;<br \/>\n&#8211; incerteza relativamente ao futuro.<\/p>\n<p>A primeira rede de acolhimento, de suporte e de al\u00edvio da dor, ser\u00e3o os pais. A crian\u00e7a\u00a0esperar\u00e1 dos seus progenitores elos de seguran\u00e7a, presen\u00e7a f\u00edsica, amor, toler\u00e2ncia,\u00a0capacidade de escuta, conten\u00e7\u00e3o para a sua ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 expect\u00e1vel que a doen\u00e7a cr\u00f3nica na crian\u00e7a atinja n\u00e3o s\u00f3 esta mas tamb\u00e9m a sua\u00a0fam\u00edlia. E surgem assim modifica\u00e7\u00f5es e novas exig\u00eancias no contexto familiar. Da\u00ed que a\u00a0terap\u00eautica deva prever as rela\u00e7\u00f5es entre crian\u00e7a \u2013 fam\u00edlia \u2013 t\u00e9cnicos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Na crian\u00e7a, a doen\u00e7a cr\u00f3nica (seja ela qual for) pode ser sentida pelos pais como agress\u00e3o,\u00a0culpa e at\u00e9 potencial elemento reactivador de (outros) problemas pessoais. Decorre daqui,\u00a0frequentemente, estados depressivos relacionados com essa decep\u00e7\u00e3o, auto acusa\u00e7\u00e3o, falha\u00a0narc\u00edsica (o beb\u00e9 \/ crian\u00e7a imagin\u00e1rio para os pais \u00e9 substitu\u00eddo pelo beb\u00e9 \/ crian\u00e7a real\u00a0comprometendo, nas suas cren\u00e7as, a transgeracionalidade).<\/p>\n<p><strong>Igualmente no geral consideram-se as seguintes fases de adapta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica \u00e0 doen\u00e7a, por\u00a0parte da fam\u00edlia:<\/strong><br \/>\n&#8211; nega\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a no momento do diagn\u00f3stico;<br \/>\n&#8211; desorganiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e consequente necessidade de reajustamento familiar \u00e0s novas\u00a0rotinas;<br \/>\n&#8211; adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a e aos seus efeitos tendo em conta as caracter\u00edsticas da doen\u00e7a, quest\u00f5es\u00a0de doen\u00e7as na fam\u00edlia, idade da crian\u00e7a, caracter\u00edsticas da sua personalidade.<\/p>\n<p>Torna-se relevante assumir que a forma como a crian\u00e7a vai lidar com a pr\u00f3pria doen\u00e7a\u00a0depende tamb\u00e9m da forma como os pais transmitem a sua ang\u00fastia. Da\u00ed muitos autores\u00a0defenderem que o ajustamento da crian\u00e7a \u00e0 doen\u00e7a pode depender mais do funcionamento\u00a0familiar do que da doen\u00e7a em si.<\/p>\n<p>Na fase dos tratamentos \u00e9 habitual verificar-se uma altera\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o entre a crian\u00e7a e os\u00a0pais, uma vez que aquela passa a encarar os m\u00e9dicos e restante pessoal de sa\u00fade como figuras\u00a0de depend\u00eancia, papel que antes estava s\u00f3 atribu\u00eddo aos progenitores. Mais uma vez, tal pode\u00a0exaltar a viv\u00eancia de problemas de cariz narc\u00edsico por parte dos pais.<\/p>\n<p>Estudos revelam que, estatisticamente, s\u00e3o as m\u00e3es que mais frequentemente acompanham a\u00a0doen\u00e7a da crian\u00e7a, as que sentem mais as exig\u00eancias da crian\u00e7a doente e as que se sentem\u00a0menos apoiadas pelos parceiros e tamb\u00e9m s\u00e3o elas que, de um modo geral, deprimem mais\u00a0frequentemente. Ainda considerando as estat\u00edsticas, no ajustamento psicol\u00f3gico \u00e0 doen\u00e7a de\u00a0um filho, os pais envolvem-se menos (por quest\u00f5es ocupacionais ou por estrat\u00e9gia) e t\u00eam\u00a0n\u00edveis de ansiedade mais baixos.<\/p>\n<p>Do lado da crian\u00e7a, na fase do tratamento, esta n\u00e3o deixa de passar por situa\u00e7\u00f5es\u00a0potencialmente ou efectivamente traum\u00e1ticas, sendo aconselh\u00e1vel a presen\u00e7a dos familiares\u00a0junto da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>J\u00e1 na fase de estabilidade ou de restabelecimento, continua a ser importante o estilo\u00a0securizante por parte dos pais, o que, sabe-se, nem sempre \u00e9 f\u00e1cil conseguir-se, pois estes\u00a0tamb\u00e9m necessitam de tempo para adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 sua crian\u00e7a restabelecida, al\u00e9m de que a\u00a0preocupa\u00e7\u00e3o com o fantasma da repeti\u00e7\u00e3o do quadro de doen\u00e7a possa levar a\u00a0comportamentos de oposi\u00e7\u00e3o do lado dos pais. Nesta altura, a aposta dever\u00e1 ser a merecida\u00a0retoma da crian\u00e7a \u00e0 sua vida do mesmo modo que as outras crian\u00e7as e privilegiando-se a\u00a0independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Alice Patr\u00edcio,\u00a0Psic\u00f3loga Cl\u00ednica, para Up to Kids\u00ae<\/p>\n<p>Todos os direitos reservados<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o corpo se torna um lugar de sofrimento A doen\u00e7a cr\u00f3nica na crian\u00e7a traz altera\u00e7\u00f5es no dia-a-dia, com repercuss\u00f5es psicol\u00f3gicas como:\u00a0ang\u00fastia, sentimento de anormalidade em rela\u00e7\u00e3o a outras crian\u00e7as, culpa sobre os pais, ou\u00a0mesmo depress\u00e3o. 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