{"id":10043,"date":"2015-05-19T12:16:14","date_gmt":"2015-05-19T12:16:14","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=10043"},"modified":"2015-05-19T12:16:14","modified_gmt":"2015-05-19T12:16:14","slug":"dizer-ou-perguntar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=10043","title":{"rendered":"Dizer ou perguntar"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Se calhar dev\u00edamos ter come\u00e7ado logo por dizer o que \u00e9 uma pessoa, escus\u00e1vamos de ter andado aqui \u00e0s voltas\u201d<\/em>, dizia-me o pai no final da oficina de filosofia, para crian\u00e7as. A pergunta que ali nos levou era \u201c<em>o que \u00e9 uma pessoa?<\/em>\u201d e o exerc\u00edcio proposto passou por olhar \u00e0 volta e identificar se haveria pessoas na sala e depois \u201carrumar\u201d uma s\u00e9rie de imagens de \u201ccoisas\u201d que podiam ou n\u00e3o ser pessoas. Exemplos: um robot, um beb\u00e9, o super-homem, o desenho de uma pessoa (feito por uma crian\u00e7as de 5 anos) e um c\u00e3o chamado F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que as imagens iam sendo olhadas e pensadas pelo grupo, come\u00e7ou a sentir-se alguma dificuldade em opinar de forma definitiva sobre o c\u00e3o, que por acaso \u00e9 o meu. V\u00e1rias foram as caracter\u00edsticas apontadas pelas crian\u00e7as \u2013 com idades entre os 7 e os 10 anos \u2013 que apontavam que o F\u00e9lix n\u00e3o \u00e9 uma pessoa. Mas um dos meninos n\u00e3o abandonou a sua ideia, de que o F\u00e9lix \u00e9 uma pessoa e quisemos ouvir os seus argumentos. Estes foram fortes, de tal forma que fizeram duas pessoas mudar de ideias. Os pais presentes na oficina assistiam ao di\u00e1logo, evitando falar sobre o assunto. Parecia-lhes t\u00e3o \u00f3bvio \u201cisso\u201d de ser uma pessoa que a discuss\u00e3o em torno do tema come\u00e7ava a incomodar.<\/p>\n<p><em>\u201cNunca tinha pensado nisso<\/em>\u201d, dizia-me uma m\u00e3e. Nisso?, perguntei. \u201c<em>Sim, nisso do que \u00e9 ser uma pessoa. N\u00e3o costumo pensar nessas coisas, dessa maneira. Achei muito interessante.\u201d<\/em> E, se me permitem dizer, \u00e9 mesmo muito interessante, isso de propor perguntas a um grupo de crian\u00e7as e de perceber que sentido t\u00eam as coisas para elas. Sem preconceitos, sem ideias feitas. Escutar e dialogar sobre isso, pelo prazer de parar para pensar.<\/p>\n<p>Quando o tal pai me disse que tinha sido melhor come\u00e7ar por dizer o que \u00e9 uma pessoa, respondi-lhe que isso seria matar o processo de pensamento , de descoberta e de investiga\u00e7\u00e3o. O senhor estava nitidamente incomodado com o facto de ali se dizer que o F\u00e9lix, um c\u00e3o, podia ser uma pessoa. De tal forma que isso o ter\u00e1 impedido de usufruir do momento de pensar.<\/p>\n<p>Curioso \u00e9 o facto de, em grupos mais novos, o F\u00e9lix ser rapidamente \u201carrumado\u201d na gaveta \u201cn\u00e3o \u00e9 uma pessoa\u201d. E as crian\u00e7as argumentam facilmente, pelas diferen\u00e7as que encontram, por exemplo em rela\u00e7\u00e3o a um ser humano. J\u00e1 os mais velhos tendem sempre a considerar que \u00e9 uma pessoa, pela humanidade que encontram no fiel amigo.<\/p>\n<p>Entre o dizer e o perguntar \u2013 e no qual a filosofia para crian\u00e7as diz respeito \u2013 eu opto por perguntar, sem saber muitas vezes as respostas que vou encontrar.<\/p>\n<p>E se me perguntarem, fora da oficina de filosofia, se o F\u00e9lix \u00e9 uma pessoa, digo sem hesitar: SIM. \u00c9 uma pessoa e muito humana.<\/p>\n<p>Joana Rita Sousa,\u00a0para Up To \u00a0Kids\u00ae<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080;\">Todos os direitos reservados<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Se calhar dev\u00edamos ter come\u00e7ado logo por dizer o que \u00e9 uma pessoa, escus\u00e1vamos de ter andado aqui \u00e0s voltas\u201d, dizia-me o pai no final da oficina de filosofia, para crian\u00e7as. 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