{"id":10002,"date":"2015-05-31T00:05:42","date_gmt":"2015-05-31T00:05:42","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=10002"},"modified":"2015-05-31T00:05:42","modified_gmt":"2015-05-31T00:05:42","slug":"o-filho-dileto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=10002","title":{"rendered":"O FILHO DILETO"},"content":{"rendered":"<p><em>Certa vez perguntaram a uma m\u00e3e qual era seu filho preferido, aquele que ela mais amava.<br \/>\n<\/em><em>E ela, deixando entrever um sorriso, respondeu: &#8220;Nada \u00e9 mais vol\u00favel que um cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e. E como m\u00e3e, lhe respondo: o filho dileto, aquele a quem me dedico de corpo e alma&#8230;<br \/>\n<\/em><em>\u00c9 o meu filho doente, at\u00e9 que sare.<br \/>\n<\/em><em>O que partiu, at\u00e9 que volte.<br \/>\n<\/em><em>O que est\u00e1 cansado, at\u00e9 que descanse.<br \/>\n<\/em><em>O que est\u00e1 com fome, at\u00e9 que se alimente.<br \/>\n<\/em><em>O que est\u00e1 com sede, at\u00e9 que beba.<br \/>\n<\/em><em>O que est\u00e1 estudando, at\u00e9 que aprenda.<br \/>\n<\/em><em>O que est\u00e1 nu, at\u00e9 que se vista.<br \/>\n<\/em><em>O que n\u00e3o trabalha, at\u00e9 que se empregue.<br \/>\n<\/em><em>O que namora, at\u00e9 que se case.<br \/>\n<\/em><em>O que casa, at\u00e9 que conviva.<br \/>\n<\/em><em>O que \u00e9 pai, at\u00e9 que os crie.<br \/>\n<\/em><em>O que prometeu, at\u00e9 que se cumpra.<br \/>\n<\/em><em>O que deve, at\u00e9 que pague.<br \/>\n<\/em><em>O que chora, at\u00e9 que cale.<br \/>\n<\/em><em>E j\u00e1 com o semblante bem distante daquele sorriso, completou:<br \/>\n<\/em><em>O que j\u00e1 me deixou&#8230;<br \/>\n<\/em><em>at\u00e9 que o reencontre.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">FILHO PREDILETO<br \/>\n&#8211; Erma Bombeck &#8211;<\/p>\n<p>Os filhos diletos, os tais que se estimam de maneira preferencial, os preferidos, os que abra\u00e7amos primeiro, ou aqueles que ocupam uma \u00e1rea maior no cora\u00e7\u00e3o, existem, e as m\u00e3es sabem-no.<br \/>\nTalvez o tema que hoje trago seja o \u00faltimo tabu da maternidade, talvez seja mesmo o <em>\u00fanico<\/em> tabu da maternidade, mas em mim, que me quedo sozinha numa rela\u00e7\u00e3o maternal, que nunca disputei a barriga da minha m\u00e3e, o amor da minha m\u00e3e, a aten\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e, por n\u00e3o ter obviamente com quem a disputar, encontro diferen\u00e7as substanciais quando observo as m\u00e3es nas suas amb\u00edguas escolhas, que nunca s\u00e3o por falta de amor, quando t\u00eam dois ou mais filhos.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter ou sentir duas vezes a mesma coisa, da mesma maneira. Gostar igual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, nem \u00e9 med\u00edvel, t\u00e3o pouco afirmado, e no entanto h\u00e1 tanta gente a diz\u00ea-lo que quase se tornou verdadeiro.<br \/>\nMas \u00e9 falso.<\/p>\n<p>Nasci no seio de uma fam\u00edlia matriarcal, de muitos irm\u00e3os.<br \/>\nTive por isso muitas oportunidades de verificar, com bastante certeza, as prefer\u00eancias da matriarca, e seria capaz, sem falhar um nome, de elencar por ordem de prefer\u00eancia, os filhos diletos da minha av\u00f3.<br \/>\nNem ela, que foi tantas vezes confrontada, foi capaz de desmentir aos filhos, que sabiam de cora\u00e7\u00e3o ser os menos preferidos da m\u00e3e, as prefer\u00eancias que saltavam \u00e0 vista.<br \/>\nHouve um, por curiosidade o meu pai, que ocupou sempre o lugar cimeiro da extensa lista.<br \/>\nNo in\u00edcio, quando comecei a pensar no assunto, achava que por ele ser o mais branquinho numa fam\u00edlia de morenos, o do \u2018<em>olhinho azul\u2019<\/em>, o tal que a minha av\u00f3 ia lavar no Ribeiro da Levada, \u2018<em>coitadinho,<\/em> <em>sempre t\u00e3o sujinho<\/em>\u2019 quando ainda n\u00e3o tinha 6 anos e j\u00e1 estava justo numa quinta que criava perus.<br \/>\nMas todos os filhos daquela m\u00e3e trabalharam em pequenos, e muitos deles em piores condi\u00e7\u00f5es que o meu pai, e andavam igualmente sujinhos, logo, aquela raz\u00e3o n\u00e3o poderia ser a mais certa.<br \/>\nDepois pensei que por serem vizinhos, j\u00e1 em Lisboa, que a proximidade das casas os tivesse aproximado; mas enganei-me. O meu pai foi de todos os filhos, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dos que estavam longe ou emigrados, o mais ausente. N\u00e3o o via todos os dias como acontecia por exemplo com outros filhos e filhas, nem o meu pai vencia os irm\u00e3os nas aten\u00e7\u00f5es e carinhos \u00e0 m\u00e3e, e no entanto, sempre que o meu pai chegava, os olhos pequeninos e muito alvos da minha av\u00f3 abriam-se todos num abra\u00e7o. O meu pai foi o filho dileto e nunca se encontrou o motivo.<br \/>\nA minha av\u00f3 gostou sempre mais daquele filho, que n\u00e3o foi o primeiro e nem o \u00faltimo, que n\u00e3o era o mais inteligente e nem o menos inteligente, que n\u00e3o era o mais fr\u00e1gil e nem o mais forte, mas que era somente <em>aquele<\/em> que ela gostava mais, <em>aquele<\/em> por quem sentia mais afeto, o que melhor lhe calhava.<br \/>\nMais tarde na vida, morreu uma filha \u00e0 minha av\u00f3, e anos depois um filho. Ningu\u00e9m poder\u00e1 dizer o que sente uma m\u00e3e que perde um filho, e muito menos dois, mas ainda assim pude verificar que at\u00e9 no horror de perder os filhos as dores foram diferentes. Custou-lhe muito mais a morte do filho. O mais velho, o primeiro, um menino, e que predilec\u00e7\u00e3o tinha a minha av\u00f3 por meninos. Demorou muito mais tempo a recuperar. Falava muito nele. A filha, mais arisca, mais \u2018<em>rebitesa<\/em>\u2019, n\u00e3o lhe enchia l\u00e1 as medidas, discutiam, aborreciam-se, e talvez seja nesta qu\u00edmica de entendimentos, nesta f\u00f3rmula desconhecida que nos faz amar algu\u00e9m em detrimento de outro algu\u00e9m que resida o segredo do filho dileto.<br \/>\nO texto que nos escreveu Erma Bombeck \u00e9 mais rom\u00e2ntico que verdadeiro, \u00e9 mais imagin\u00e1rio do que real, porque coloca-nos v\u00e1rios problemas.<br \/>\nAdmite afinal que h\u00e1 um filho dileto, embora fa\u00e7a depender a predilec\u00e7\u00e3o em diferentes circunst\u00e2ncias e tempos. Calha-se \u00e0quela m\u00e3e ter os dois filhos ao mesmo tempo numa situa\u00e7\u00e3o complicada, em apuros, com fome, com sede, enfim, em qualquer necessidade que derretesse o seu cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e, e t\u00ednhamos uma contradi\u00e7\u00e3o, porque j\u00e1 n\u00e3o poder\u00edamos estar a falar de filhos diletos, porque o dileto s\u00f3 pode ser um, e n\u00e3o todos dependendo da situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJulgo que a dificuldade de aceita\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia do filho dileto reside na <em>escolha<\/em>.<br \/>\nA m\u00e3e tem efectivamente um filho dileto, a m\u00e3e sabe exactamente de qual filho gosta mais, mas para a maioria das m\u00e3es, \u00e9 na escolha que reside o grande problema.<br \/>\nA m\u00e3e, por uma quest\u00e3o de natureza biol\u00f3gica e psicol\u00f3gica, inerente ao ser humano, \u00e9 muitas vezes incapaz de escolher um filho quando se coloca a quest\u00e3o do <em>salvar<\/em>, no caso de ser obrigada a escolher. E \u00e9 precisamente nesta quest\u00e3o que pensa quando lhe colocam a quest\u00e3o de qual filho gosta mais.<br \/>\nQual dos filhos salvarias primeiro se apenas um pudesse sobreviver? O mais fr\u00e1gil, o mais doente, o menos inteligente, como diz o texto, ou o mais forte, o mais \u00e1gil, o mais arguto, o mais capaz?<br \/>\nSerias capaz de escolher por caracter\u00edsticas colocadas no momento, ou a escolha h\u00e1 muito que tinha sido feita?<br \/>\nDiz-me, mesmo sabendo que n\u00e3o seria a melhor escolha, n\u00e3o escolherias o teu predilecto?<\/p>\n<p>Nada na natureza se repete, nem em intensidade, nem na forma, nem no conte\u00fado.<br \/>\nGostas muito de todos mas d\u00e1s-te melhor com o Miguel, que \u00e9 mais parecido contigo no feitio.<br \/>\nN\u00e3o. Porque n\u00e3o dizes antes que gostas mais do Miguel porque te d\u00e1s melhor com ele, e tamb\u00e9m gostas muito dos outros, mas <em>\u00e9 diferente<\/em>?<br \/>\nPorque como m\u00e3e n\u00e3o podes criar neles essa inseguran\u00e7a, esse absoluto terror, essa luta entre irm\u00e3os pela disputa do amor de m\u00e3e, colocando em causa uma rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 de si t\u00e3o fr\u00e1gil, e fr\u00e1gil por isso mesmo.<br \/>\nPor isso mentes sobre o que sentes.<br \/>\nE n\u00e3o faz mal. E n\u00e3o tem mal.<\/p>\n<p>A velhinha imagem que nos remete para a \u00e1gua que passa por baixo da ponte, utilizada para demonstrar que nada \u00e9 nunca igual, e que nunca nada se repete, \u00e9 a mesma que utilizo para demonstrar que uma m\u00e3e, mesmo que sempre imensa, sempre abundante, como a \u00e1gua da nascente, n\u00e3o consegue ter em todo o percurso a mesma for\u00e7a. Da mesma maneira que o leito do rio tem obst\u00e1culos que o impedem de ser sempre igual, assim os filhos, que com a sua personalidade impedem a m\u00e3e de os amar de forma igual.<\/p>\n<p><em>Por Uva Passa, no Blog Uva Passa<\/em><br \/>\n<em>autorizado para\u00a0Up To Lisbon Kids\u00ae<\/em><\/p>\n<p><em>Todos os direitos reservados<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certa vez perguntaram a uma m\u00e3e qual era seu filho preferido, aquele que ela mais amava. E ela, deixando entrever um sorriso, respondeu: &#8220;Nada \u00e9 mais vol\u00favel que um cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e. 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