Quando dizemos que “um irmão é um presente que se dá a um filho” estamos, naturalmente, a simplificar e a idealizar uma realidade que, a bem da verdade, normalmente é sentido como “presente envenenado”.

Se pensarmos bem, com a chegada de um irmão, a criança vê o seu “reino” ameaçado, quando uma criatura pequenina, enrugadinha e que (diga-se de passagem), numa fase inicial come, dorme, chora e pouco mais, se vem instalar na sua casa e pior, nos braços da sua mãe! Antes do nascimento do irmão, são muitas as pessoas que lhe dizem “agora vais ter um mano para brincar” e, na sua fantasia, a criança imagina que vai nascer um irmão prontinho para a brincadeira.

E assim, a relação começa logo marcada por uma grande desilusão.
Este ser que é um estranho, inicialmente, ainda que activando na criança já alguns receios (p.e. perder a mãe e o pai, perder a exclusividade, perder a propriedade dos seus brinquedos e roupas),  pode até beneficiar de um enamoramento inicial. Fase em que a “guerra”, ainda não foi formalmente declarada.

Depois, por vezes de forma gradual, outras de forma mais violenta, surgem os primeiros sinais de desconforto, com as regressões, birras, choros e agressividade com o recém chegado. Ainda assim, justiça seja feita, depois de ultrapassado o reboliço “inicial” (que pode durar alguns tempo), criam-se as condições para que se manifestem todas as coisas boas que um irmão pode trazer à vida de uma criança, em termos de aprendizagem, cumplicidade e companheirismo. Mas primeiro, há que ultrapassar as dificuldades.

Antes de intervir, compreender

Com a chegada de um irmão, “baralham-se os amores” e, por essa razão, inicialmente, mais do que gerir a relação, será importante ensinar os seus filhos a lidarem com as suas próprias emoções. As queixas dos seus filhos, por mais estranhas ou afastadas da realidade que lhe pareçam, são formas dele exprimir o que sente e, principalmente, os medos que o perturbam naquele momento.

Por essa razão, é importante que as oiça, e que as considere como válidas, reagindo com empatia. Durante estes períodos de “crise”, é muito importante que escute com particular atenção para que possa ajudar o seu filho a elaborar, ao seu ritmo, esta nova realidade.

Hoje sabe-se que os sentimentos são sempre melhores manifestos do que reprimidos. No entanto, quando ralhamos, argumentamos ou pressionamos uma criança a deixar de ter determinados comportamentos (de agressividade por exemplo), estamos precisamente a levá-la a reprimir a manifestação e não o sentimento que lhe é subjacente. Este tende até a intensificar-se. Por outro lado, sempre que fazemos juízos de valor acerca da forma como a criança está a reagir, punimos e/ou censuramos, estamos a atingir a criança na sua auto-estima, o que virá confirmar os seus receios de que está a “perder” o amor dos seus pais.

Alguns autores, consideram que a rivalidade entre irmãos, se deve a uma ameaça à sua individualidade.

“Eu devo ser como sou, ou devo ser como o meu irmão?”, “se formos diferentes, seremos igualmente amados?” são algumas das questões que, ainda que não seja de forma consciente, inquietam a criança. Respeitar as diferenças e ajudar os seus filhos a desenvolver a sua individualidade terá um papel muito importante no processo de aceitação.

Cada um é, e deve ser, como é! Se o seu filho sentir que ser ele próprio não é bom e que, o melhor é ser como o irmão, vai, inicialmente, tentar mudar. Deste movimento podem surgir as regressões como por exemplo, pedir chucha, gatinhar ou querer voltar ao biberão, ou a imitação de gostos, brincadeiras, entre muitas outras coisas. Com o fracasso da tentativa de ser como o irmão (porque de facto não é possível, nem desejável) vem a zanga, a frustração e a rejeição.

O ideal será então que os pais reforcem as diferenças, mostrando que todas as formas de ser, sexo e idades, são importantes e têm lugar na família. Mostre que essas diferenças são precisamente o que torna a família especial, pois assim, ser como ele é, é ser especial. Ultrapassar os ciúmes de um irmão corresponde a uma conquista gradual de auto-estima, segurança e individualidade.

A criança percebe que é amada como é, e independentemente do que faça. E pode, a partir daí, passar a amar livremente e sem medos este pequeno “invasor” que, rapidamente, se pode tornar no seu melhor e mais especial amigo.

Conselhos para lidar com o ciúme entre irmãos

1. Escute sempre as queixas do seu filho de coração aberto, sem julgamentos e agindo de forma empática.

Diga coisas como “percebo que estejas triste, a mamã tem estado muito tempo com o mano e tu gostarias que pudesse estar esse tempo todo contigo também” e “compreendo que seja muito chato ter um irmão mais novo”. Note-se que dizer “ter um irmão é chato”, é diferente de dizer “o teu irmão é chato”.

2. Nunca tome partido nos conflitos e evite interferir.

Se não for mesmo possível, então separe-os. Não com forma de castigo mas para os levar a fazer actividades diferentes. Se se tiverem magoado, então envolva os dois na reparação de igual forma.

3. Não condene o mais velho por ter uma atitude hostil ou exprimir sentimentos negativos.

Eu sei que é difícil resistir à tendência fortemente enraizada para dizer coisas como “isso é feio!”, “não digas isso do teu irmão que ele gosta tanto de ti”, “temos que gostar dos irmãos e tratar bem deles”, etc.

Ao invés disso, experimente “traduzir” as acções, revelando os sentimentos que estão por detrás do comportamento, usando frases como “compreendo que estejas irritado porque o teu irmão está a estragar a tua brincadeira” ou “vejo que estás zangado porque o teu irmão está a precisar da atenção da mamã”, “se neste momento não te apetece brincar com o teu irmão, não brinques”.

4. Não tente, de forma alguma, convencê-lo que gosta mais do irmão do que o que pensa.

O seu filho está zangado e é só nisso que está focado. Se tentar convencê-lo do contrário, vai fazê-lo sentir-se culpado e isso pode agravar ainda mais a situação.

5. Promova actividades com o filho mais velho.

Para lidar com as regressões, promova actividades com o mais velho que estejam de acordo com a sua idade (brincar com os amigos, fazer jogos mais complexos e que lhe dêem prazer, ir passear só com o pai ou só com a mãe).

6. Se o seu filho acha que o irmão está a ser beneficiado relativamente a alguma coisa, não negue.

É assim que ele está a sentir a situação e, para já, não consegue analisá-la sob outro ponto de vista. A negação só vai aumentar o sentimento de injustiça e incompreensão. Explique apenas que as coisas não são, nem têm que ser sempre feitas de forma igual e que, isso nada tem a ver com o que sentimos pelas pessoas.

Pode dizer coisas como “quando nasceste também recebeste muitos presentes como o teu mano está a receber. Não sei se foram mais, se foram menos. Só sei que foram muitos, muitos” e “é chato quando sentimos que estamos a ser prejudicados. Eu lembro-me de sentir isso quando era pequenina”.

7. Dê exemplos práticos.

Para o ajudar a lidar com as diferenças e respectivas vantagens e desvantagens, pode dar exemplos que o ajudem a perceber que também ele já viveu as etapas pelas quais o irmão está agora a passar. Alguns exemplos seriam “as pessoas gostam muito de olhar e falar com os bebés na rua. Quando tinhas a idade do teu irmão também era assim contigo”, “quando eras pequenino, não podias brincar no parque como fazes agora. Só podias passear no carrinho como o teu irmão”.

8. Promova a individualidade e diferença nos seus filhos.

Dê exemplos de formas de ser diferentes como “o papá adora lavar o cabelo. Já eu sou como tu, não gosto nada”. Evite comprar roupas iguais ou a combinar. Quando já for possível, peça para que sejam eles a escolher e ajude-os a fazê-lo de acordo com os seus gostos individuais.

Se possível, evite as heranças “passivas” de roupa e brinquedos. Pergunte ao mais velho o que é que já não quer para ele e que queira dar ao mais novo. Depois, confirme se o mais novo o quer receber ou se interessa.

9. Auto-estima e auto-confiança

Se os níveis de agressividade são muito intensos, então pense em ajudar o seu filho a desenvolver uma boa auto-estima e auto-confiança e leve-o para actividades ao ar livre e físicas que o vão ajudar a descarregar alguma energia.

Do lado dos pais

Lembre-se de como foi a sua infância. Muito da forma como reagimos aos ciúmes dos nossos filhos, passa pelo que nós próprios experienciámos em criança. Foi filho/a único/a ou tem irmãos? Tem tendência para defender o mais velho? O mais novo? Irrita-se e desvaloriza as queixas? Age passivamente ou é demasiado interventivo/a?

O que é que sente em cada um dos momentos de ciúme com que é confrontado/a? Espreite dentro de si mesmo/a. Depois de encontrar estas respostas, tente separar o que é seu e o que é dos seus filhos. Cada um deles é um ser único e especial e vão viver a existência de um irmão de forma igualmente única e especial.

 

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5 Dicas para acabar com as guerras às refeições

Os momentos das “grandes” refeições são óptimos para a criança ter os pais à sua volta, atentos, focados e preocupados. E estes momentos às vezes são tão raros! É por isso que tantos pais têm dificuldades com a alimentação dos filhos. Estes, precisam de sentir que têm algum controlo para acalmar a insegurança provocada pelo desejo de conquistar mais independência. Nada melhor do que ser “um pisco” a comer para manter os pais em alerta e poder exercer esta certa forma de “poder”.

Como ultrapassar?

  1. Tão simples e tão difícil como: “Quer comer? come. Não quer? Não come.” 
    Chegou o momento de ter coragem para se libertar daquela vozinha interior que lhe diz “mas ele/a tem que comer, se não, vai ficar magrinho/a e frágil e vai adoecer e…, e….., e…..”. Estes pensamentos insistentes, não passam de crenças enraizadas que nos levam a sentir medo, sem um verdadeiro fundamento. O primeiro passo é sem dúvida, não obrigar o seu filho a comer. Se a resistência a comer é uma forma de oposição e luta pelo poder, assim que deixar de ser uma obrigação, a “guerra” deixa de fazer sentido. Salvaguardando alguns casos que ultrapassam a “normalidade” (e esses casos devem ser devidamente avaliados e acompanhados clinicamente), a verdade é que qualquer criança vai comer exactamente o necessário para estar bem e saciar a sua fome. O meu lema é sempre: “comer tem que ser mais importante para a criança do que para os seus pais”. Quando os pais ficam muito ansiosos com a alimentação de um filho, invertem-se as prioridades. Para os pais, a prioridade é fazer a criança comer. Para a criança, a prioridade é sentir-se em controlo da situação (claro que não é uma questão consciente para ela). O papel do seu filho é o de comer porque precisa e, porque tem fome. O papel dos pais é o de providenciar as condições para que isso aconteça. O cenário ideal é que ambos colaborem para que tudo se desenrole de forma tão saudável, quanto agradável.
  2. Mude a forma de comunicação à mesa. 
    Acabe com as ameaças do tipo “vais ficar doente”. Acabe com as insistências do tipo “come mais um pouquinho”, “come a carne” ou “come os legumes”. Todos os temas e conversas são válidos durante os momentos de refeição (de preferência divertidos) desde que não se toque no assunto “filho não estás a comer nada de jeito”. Nos primeiros dias deixe que o seu filho se surpreenda com a falta de atenção que o “não comer” desperta.  Já quando acontecer o contrário, e o seu filho começar a comer mais do que o habitual, então aí sim, será interessante reforçar com um “estás a gostar?”, “ficou saboroso?” ou “parece que estavas mesmo com fome…”. Numa fase inicial, pretende que a criança desbloqueie a resistência a comer. Por isso, deixe as aprendizagens de “boas maneiras” para quando esta etapa estiver ultrapassada.
  3. Tenha em consideração os gostos do seu filho
    Pense nas coisas que não gosta de comer… Quando vai a um restaurante é isso que pede? Como seria se alguém o forçasse a comê-las? As crianças estão numa fase em que ainda estão a explorar sabores e para o fazerem de forma mais aberta e ousada, é importante que sintam que o estão a fazer porque querem. Isso vai dar-lhes mais segurança para arriscarem novos sabores. Importa sim, na medida do possível, manter uma alimentação saudável e variada. Mas essa aprendizagem virá do exemplo que houver em casa e não de obrigarmos os nossos  filhos a comer algo que não gostam.
    A minha filha, como tantas outras crianças, avalia se gosta ou não de um alimento por “olhómetro” e, só depois de passar neste primeiro teste, segue para a prova efectiva. Devo confessar que esta é uma insistência da qual ainda não me consegui libertar. Por vezes, lá dou comigo a suplicar “prova só um bocadinho… vais gostar…” e a insistir “já sabes que se não gostares, não tens que comer…”. Às vezes, por “caridade”, lá me faz o “favor”. Mas a verdade é que, quando me sento distraída a saborear qualquer coisa e me esqueço de lhe perguntar se quer provar, ela fica curiosa, aproxima-se, observa e pede para eu lhe dar um bocadinho. Foi assim que, só a titulo de exemplo, começou a comer os pêssegos com a casca (porque é assim que eu os como) e provou bolinhos de gengibre, canela e limão (que detestou claro).
    Ainda relativamente ao “gosto” e “não gosto”, é fundamental neste processo que não haja substituição do almoço e jantar por “guloseimas” como biberão, bolachas, iogurtes, etc. Essas substituições vão ter um efeito contraproducente e levarão a criança a adquirir maus hábitos alimentares. Evite também que a criança coma outras coisas antes da hora da refeição, vai reduzir-lhe o apetite e a vontade de experimentar outros sabores. Ter realmente fome quando chega a hora de comer é fundamental para que as coisas corram bem.
  4. Ajude o seu filho a desenvolver outras áreas de poder
    Se o seu filho está a sentir necessidade de se afirmar e estabelecer a sua posição na estrutura familiar, então ajude-o a passar por essa etapa de forma saudável. Incluí-lo em todo o processo que envolva a refeição vai valorizá-lo. Ajudar a pôr a mesa, escolher o prato que quer usar (quando existem vários disponíveis), dar-lhe a hipótese de escolher entre vários alimentos (sem exageros), são alguns exemplos. Envolvê-lo na compra dos ingredientes também resulta muito bem. Posso partilhar por exemplo, que as melhores sopas que a minha filha comeu até hoje foram sem dúvida aquelas em que ela é que escolheu as cebolas e as batatas. Parece que, como que por magia, isso lhes confere um sabor especial. Por outro lado, quando percebi que a A. não gostava da sopa com muita cenoura, fiz questão de lhe dizer “já vi que não gostas que eu ponha muita cenoura na sopa”. Desde então, quando me vê a fazer sopa ou quando a sirvo, pergunta-me sempre “tem muita cenoura, mãe?” e gosta de me ouvir responder “não, só um bocadinho. Porque tu não gostas quando ponho muita”. Isto fá-la sentir que o gosto dela foi tido em consideração no planeamento e na preparação do jantar.
  5. Aceite que o caos pode ser desejável, e assim, preserve a sua sanidade mental.
    Se queremos verdadeiramente desbloquear certos comportamentos nos nossos filhos, então é fundamental que possamos olhar também para nós e para as emoções e dificuldades que trazemos à situação. Tente perceber como se sente nos momentos da refeição. Tente perceber se de alguma forma, não existe também da sua parte alguma necessidade de controlo e poder. Se assim for, corre o risco de cair em braços de ferro sem sentido, em que todos ficam necessariamente a perder.
    Lembre-se que insistência gera resistência, que gera mais insistência, e segue em crescendo.
    É difícil para si ouvir o NÃO do seu filho? Aceite-se como é e reconheça as suas próprias dificuldades. Depois, respire fundo. Muitas vezes e muito profundamente. É um primeiro passo e, acredite, vai ajudar muito!
    É difícil para si ver a sua casa num pequeno caos? Acredite que no inicio, quando a criança é mais pequena, uma cozinha muito suja depois da refeição, é muito bom sinal. É sinal de que o seu filho está a explorar e autonomizar-se. Acredite que limpar uma cozinha (vezes e vezes sem conta) é bem mais fácil do que lidar com a dependência (fora de horas) do seu filho. Claro que estamos a falar de situações em que a criança explora, tenta fazer coisas novas e comer sozinha. Quando o comportamento vai para além disso, então é importante estabelecer algumas regras. Mas atenção, porque é preciso saber medir muito bem esta avaliação. Lembre-se que é normal para uma criança (que está ainda a ganhar noção do seu corpo e do espaço) derrubar acidentalmente o copo, o prato ou outras coisas, e é importante que não se sinta punida por isso. Aceite que para o seu filho, crescer sujando é mais importante do que estar sempre limpinho e com medo de fazer novas conquistas! Hoje pagará o preço de ter a casa num pequeno caos. No futuro, ganha em ter um filho autónomo, com uma boa auto-estima e seguramente mais feliz.

Agora, é avançar com segurança e determinação.

Se está efectivamente a pensar implementar um novo sistema, fale disso com a sua família. Explique apenas que o mais importante é que se sintam todos bem e que os momentos de refeição possam ser de alegria. Acima de tudo, confie nas suas escolhas e lembre-se que vai precisar de calma e paciência. Será uma conquista gradual para pais e filhos mas, sem dúvida uma que irá beneficiar toda a família num futuro próximo, quando começarem a ter momentos agradáveis de refeição em família, cheios de respeito, cumplicidade e muitos sorrisos.

São já muitos os pais que ouviram falar nos “Terrible Twos”. Uma fase, que diz-se, pode acontecer entre os 18 meses e os 3 anos de idade. Diz a literatura, que corresponde a um período em que a criança começa a desenvolver comportamentos de oposição, desafiando deliberadamente as solicitações dos pais. Diz-se também, que é normal e que praticamente todas as crianças passam por isso, ainda que de forma mais, ou menos suave. Alguns pais esperançosos, lançam o desafio ao universo dizendo “eu não acredito que as birras existam!” e atribuem as mesmas a erros de interpretação por parte dos pais, outros a falta de “pulso” e “limites”.

Afinal o que são os “terrible twos?” e serão assim tão temíveis?

Imagine o que é acordar de manhã e ter uma pessoa à sua volta a vesti-la, a escolher o seu pequeno almoço, a dizer-lhe para estar sossegado(a), para se despachar para não haver atrasos, a lavar-lhe os dentes, a pentear-lhe os caracóis (sim, sem dúvida um grande desafio!), a pô-lo(a) a fazer xixi (a horas certas), ou a trocar-lhe a fralda, enquanto tem expectativas de que tudo isso corra de forma tranquila e sem grande percalços. Aceitaria passivamente que lhe escolhessem a roupa? O que comer? O que fazer e como fazer? Acredite que se para o bebé, até esta altura, tudo isto fazia parte da rotina, agora, para o bebé criança, tudo mudou. Esta é uma fase de grande transformação para os nossos filhos, é um período muito desafiante tanto para eles como para nós. Por um lado, queremos vê-los crescer bem e saudavelmente, por outro, não queremos “perder” o nosso bebé. Da mesma forma, os nossos filhos sentem que estão a crescer e que têm cada vez mais poder sobre a sua própria vida, e são cada vez mais capazes de fazer coisas, e mais ainda, de dizer coisas (aceitar, recusar, escolher…). No entanto, percebem que isso não é fácil, nem sempre é promovido ou apoiado pelos pais e, também não deixam de querer continuar a ser o nosso bebé.

A confiança é o segredo

O segredo? O segredo passa por confiar e compreender. Primeiro confiar que ajudar o nosso filho a crescer não implica perder o nosso bebé, mas antes pelo contrário, corresponde a vê-lo a ganhar e conquistar cada vez mais coisas para si. Por outro lado, compreender que este processo não só não é fácil para ele, como vai desencadear uma série de conflitos internos, difíceis de gerir, e que isso, por vezes, vai desencadear momentos de grandes e intensas “birras”.

Se eu confio e compreendo as necessidades do meu filho naquele momento, então o que é que eu faço? Dou-lhe aquilo que está a precisar. Maior autonomia. Então a estratégia passa por descobrir tudo aquilo que os nossos filhos já são capazes de fazer, tudo aquilo que não são capazes mas acreditam ser, e começar a atribuir tarefas e ensinar o que for possível. Comer sozinhos, escolher a roupa (ou parte), ajudar no supermercado, ajudar com pequenas tarefas, são apenas alguns exemplos que fazem toda a diferença. Com acompanhamento, ensinando e dando cada vez mais margem de manobra, as crianças sentem que as suas necessidades de autonomia (tão importantes nesta fase) estão a ser correspondidas e em certa medida “saciadas”. Sentem também que o seu crescimento está a ser validado e que continuam a ser acompanhados. Crescer é afinal prazeroso e não implica perder a proximidade dos pais, e isso, é profundamente reconfortante.

No entanto, as receitas não são milagrosas, e por vezes, as emoções são muitas e a capacidade de as gerir ainda é pouca. É fundamental que se deixe sair a confusão, a zanga, a frustração, a tristeza, através de alguns momentos de intenso choro, que podem ocorrer a propósito das mais despropositadas coisas (pelos menos aos nossos olhos). O nosso papel, é estar lá, acompanhar, esperar, manter a mais doce das firmezas, e aguardar que o nosso filho permita, no final, aquele abraço reparador. Um abraço importante, mas que não aceita o comportamento a todo o custo e sem limites (mesmo que com o “descontrolo” da birra, não permito nunca que a minha filha me magoe), mas que compreende as emoções que o desencadearam. Depois da minha filha se acalmar, gosto de lhe dizer, “então, já te sentes melhor? Já te posso dar um abraço?“.

Os “terríveis dois anos” são apenas mais um desafio no meio de tantos. Com serenidade e muito amor, podemos abrir espaço para descobrir o quanto esta fase pode ser tão saborosa. As conquistas dos nossos filhos, em grande medida, são também nossas. E nada mais delicioso do que ver os nossos bebés a crescer felizes, e mais ainda, a serem capazes de nos dizer isso mesmo, através das suas próprias palavras e acções.

 

Artigo da parceira  Ana Guilhas Psicóloga

 

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O Quarto da Criança

– Um reflexo do “espaço interno​” –

Com alguma frequência, mães de crianças entre os ​7 e os 11 anos pedem-me ajuda porque os filhos não adormecem sozinhos. A mãe tem de se sentar/deitar ao seu lado até adormecer, e sempre que acorda à noite chama pelo pai ou pela mãe. Existem muitas teorias, crenças e falsas ideias sobre esta questão. Por essa razão, gostaria de partilhar algumas reflexões que me parecem importantes.

 

  1. Entender a Situação

​Cada criança, família e situação é única. E por essa razão, é fundamental primeiro entender, explorar e contextualizar. A idade da criança, por exemplo, faz toda a diferença. Por outro lado, não existem fórmulas mágicas, nem universais. É por essa razão, que antes de mais nada, é preciso responder a algumas perguntas.

​P​or exemplo, porque é que a mãe tem de se deitar com ele? O que acontece se não o fizer? Como é que ele reage? Chora? Fica triste? Zanga-se? Levanta-se? Apenas insiste? Não consegue adormecer? Alguma vez a criança dormiu sozinha​? Se sim, quando é que começou a precisar de companhia? O ​quarto dos pais fica muito longe do da criança? Como seria se a mãe ou o pai, ao invés de se deitar com o filho, lhe fizesse apenas companhia durante algum tempo, sentada na cama, ou numa cadeira ao lado da cama? Os pais já conversaram com o filho acerca da situação? Se for o caso, quais são as razões que ​a criança dá para querer a sua presença ao adormecer e durante a noite?

​É frequente responderem que o filho tem medo de​ “estar só​”. Aí, é importante perceber melhor o que é estar só. É estar habituado a estar sempre acompanhado? Tem medo? Se sim, do quê? Sente-se ansioso, triste ou angustiado?

Por fim, seria importante saber como a mãe ou o pai se sente​m​ com esta situação? Preferem dormir ao lado do filho, ou na sua cama (ao lado do seu ​companheiro/a, se for o caso)? Já se sentaram os três e conversaram sobre o que cada um sente relativamente a esta questão​, e como se poderão ajudar uns aos outros? O que é que cada ​elemento da família precisa?

  1. A capacidade da criança dormir no seu quarto

A capacidade de dormir sozinho, envolve na pessoa (da criança ao adulto) uma série de recursos e competências que são fisiológicas numa fase inicial, e gradualmente, cada vez mais emocionais. Se considerarmos um bebé, que acaba de chegar ao mundo e que não tem em si ainda a capacidade de se ver e reconhecer como um ser individual e “separado” da sua mãe, e que, para além disso, necessita de mamar de duas em duas ou de três em três horas, faz-nos todo o sentido, pensar que o seu lugar será precisamente junto à mãe. Desta forma, sentir-se-á mais seguro, poderá interiorizar a ideia de que as suas necessidades têm resposta, e, em termos logísticos, dar mama à noite fica claramente mais fácil.

Mas a verdade é que o ser humano, pelo “bicho” complexo que é, vai evoluindo gradualmente da necessidade de cumprimento de necessidades básicas (sejam fisiológicas e/ou de afecto), e começa a desenvolver em si, uma estrutura psíquica, que ainda que em constante transformação, o irá acompanhar ao longo de toda a sua vida. A qualidade desta mesma estrutura, irá determinar a forma como vai viver, fazer as suas escolhas e sentir-se, ao longo de todo o caminho. Pois bem, cabe aos pais, estarem atentos a este processo evolutivo, e é aqui que entra a questão do dormir no seu próprio quarto e da capacidade de “estar só”.

Importa dizer que dormir no seu próprio quarto e dormir sozinho, são coisas diferentes. Veja-se o caso de crianças que têm irmãos mais velhos e nunca chegam a dormir efectivamente sozinhas. Isso não é um problema. A grande questão, é que, se numa fase inicial faz sentido o bebé estar junto à mãe, gradualmente, é importante que sinta que pode afastar-se dela e retornar a ela, sem danos para si mesmo, nem para a mãe. Isto, permite-lhe desenvolver o sentido de existência “dos objectos”, para além da sua presença física. Onde os vai encontrar? Dentro de si. Dentro da tal estrutura psíquica. Com o desenvolvimento da capacidade de guardarmos pessoas (e não só) “dentro de nós”, aprendemos a sentir-nos mais seguros. É isso que permite à criança ficar na escola durante o dia, sem se desestruturar, permite-lhe pensar em si mesma como um ser que poderá estar longe, estando muito perto. Aqui, eu voltaria a perguntar: o que é estar só?

Pense no adulto, que podendo estar a dormir na cama com outra pessoa, pode igualmente sentir-se profundamente só, e estando a dormir sozinho num quarto, pode sentir-se absolutamente acompanhado, seguro e amado. O verdadeiro sentido de proximidade é vivido dentro de nós. Está na capacidade de confiar que as pessoas significativas estão cá para nós, no sentido lato da expressão e não apenas no sentido físico.

A par com esta competência profundamente estruturante para o Ser Humano, existe outro aspecto que entra em acção nestas situações. O sentimento de segurança interna. O que há de tão ameaçador na vida ou neste mundo, que leve a que ​a ​criança não possa dormir num quarto (provavelmente separada​ do quarto dos pais apenas por uma parede), sozinh​a​? A resposta é nada. É isso que temos que sentir, e que temos que passar aos nossos filhos.

Mas a questão é que os pais vivem com os seus próprios medos (muitas vezes inconscientes) de que poderão perder os seus filhos, ou de que este mundo é efectivamente uma ameaça. Quando confrontados com a fase normal e saudável dos medos, pesadelos e terrores nocturnos da criança, são os pais quem mais se assusta. Depois, perante as suas inseguranças, enviam mensagens confusas aos seus filhos. Alguns exemplos são os pais que abrem os armários para mostrar que não está lá nenhum monstro (se eles não existem, porquê que é preciso espreitar?), outros dizem aos filhos para rezar muito quando chegam os medos (para estarem protegidos, do quê?), ou dizem que mandaram embora o que quer que fosse que estivesse no quarto (então mas se não existe…). Estas mensagens são contraditórias. Tanto quanto ficar a dormir com o seu filho. Está a dizer-lhe indirectamente que ele precisa que fique ali com ele, para que possa estar protegido (e consiga dormir em paz) – “Se a minha mãe fica aqui, é certamente porque eu preciso disso para estar bem”.

Dormir sozinho põe ainda à prova e ajuda a desenvolver, uma terceira competência que me parece digna de ser mencionada aqui​: ​a capacidade da criança gerir as emoções (e os seus fantasmas pessoais). A noite é óptima para lhe ensinar isso mesmo. Quando dizemos a um filho -“o teu lugar não é na minha cama e o meu lugar não é na tua cama”, estamos a permitir-lhe viver algumas das frustrações que fazem parte da vida e que ele vai ter que aprender a gerir. Quando dizemos a um filho, “eu percebo e é normal teres medos, vou ajudar-te no que me for possível, mas sei que boa parte da conquista vai ser tua”, estamos a ajudá-lo a gerir os seus próprios medos, e a entender que se a mãe não fica assustada e o deixa lidar com eles, então não deverão ser assim tão “gigantescos”. Quando diz ao seu filho – “eu consigo estar fisicamente separa de ti, continuando a amar-te da mesma forma”, está a dizer-lhe que o amor é constante, genuíno e seguro. 

Sempre que se aborda este tema, normalmente os pais focam a questão da autonomia, como sendo um ponto ou uma preocupação central. Pensam, na maioria das vezes, em autonomia funcional. Esquecem, no entanto, que a verdadeira autonomia, é a autonomia emocional. A capacidade de enfrentar desafios sem se desestruturar, a capacidade de ser ver como um ser individual e único (que não se funde ou baralha com os outros), capaz de construir o seu próprio caminho, encontrar as suas próprias soluções, ainda que, possa escolher fazer esse caminho acompanhado (e escolher, é muito diferente de precisar). Ou seja, escolher aconselhar-se com os pais sempre que tem um problema, é diferente e muito mais libertador do que acreditar que precisa da ajuda dos pais sempre que enfrenta um desafio.

  1. Ajudar o seu filho/a a dormir no seu próprio quarto

​Para ajudar a criança a dormir no seu próprio quarto, aceitando que os pais façam o mesmo, ​​é fundamental que possam todos conversar abertamente sobre esse tema, sem acusações, recriminações ou castigos. Os pais devem falar sobre o que cada um pensa e sente sobre a situação. Depois, pergunt​ar ​ao filho o que pensa, sente, e acha que consegue fazer.

​É igualmente importante que sejam clar​os sobre a organização familiar,​ e a vivência do espaço da casa,​ definindo as regras e explicando o que as coisas são. “Eu e o pai somos um casal e, por isso, dormimos na mesma cama. Um dia, poderás querer o mesmo para ti”, “​t​u és nosso filho, e por isso, preparámos o teu quarto, um espaço teu, e que fica junto ao nosso quarto”. ​Para o seu filho, o respeito pelo quarto torna-se ainda mais importante na adolescência, ​altura em que os pais não deverão entrar sem bater, por exemplo.

​Porque me perguntam muitas vezes, devo dizer que quanto a mim, deixar chorar não é uma opção. Na minha opinião, nunca foi. Fazer escolhas claras, ser coerente e determinada​/o​ não é deixar de ser sensível às necessidades do seu filho​/a​. O que acontece às vezes, é confundirmos o que ​a criança pede, com o que el​a realmente precisa, e o que el​a​ pensa que não consegue fazer, com uma verdadeira incapacidade. Ora, ​a criança não sabe até onde consegue ir, até chegar lá. Precisa por isso, que alguém acredite por el​a​ numa fase inicial, para que el​a​ possa começar a acreditar sozinh​a​, numa fase mais adiantada. Todo este processo de conquista, pode e deve ser feito com o seu acompanhamento. Precisa de alguém ao seu lado para adormecer? Não se deite com el​a​. ​E​steja ao lado del​a​. Tem pesadelos, acorda e chama os pais? Vá lá, confort​e-a​, diga-lhe que virá sempre que ​ela​ precisar, mas que​,​ ​uma vez que esteja mais calm​a​ ou te​nha​ ​adormecido, ​voltará para a sua própria cama. Isto é muito cansativo no in​í​cio, mas gradualmente, el​a​ deixará de sentir necessidade de chamar ​os pais ​(estará a desenvolver ​um​ sentimento de segurança).

Outra estratégia importante é, se ​ambos os pai​s​ fizer​em​ parte do agregado, que alternem “os turnos”. Um dia fica para um, no outro dia, é o outro. Tenha em atenção que são os pais que decidem, e se organizam, e não o seu filho. Ou seja, hoje será o pai porque eu tenho que fazer umas coisas, amanhã serei eu porque o pai vai estar mais ocupado, etc. Uma das coisas que mantém muitas vezes, este tipo de comportamento, é uma falsa sensação de controlo sobre a mãe e sobre a relação dos pais. A criança fica refém dessa necessidade, e acredita que só pode sentir-se segura se controlar as pessoas à sua volta. Imagine o que é crescer com este sentimento!

Organize e crie uma rotina “amiga” do sono. Tente que o horário durante a semana seja estável, sendo que podem fazer do fim de semana, a exceção. Actividades mais calmas e relaxantes perto da hora de dormir são benéficas. Por outro lado, a hora de ir para a cama, pode ser um bom momento para partilhas com o seu filho, conversar calmamente sobre os seus sentires, planos para o dia seguinte, etc. Se houver medos, ou ansiedades, falar sobre elas é benéfico. O papel dos pais é estar ali, ouvir, entender, conter. Não minimize, desvalorize ou tente resolver as questões à sua maneira. Esteja apenas lá, e diga-lhe que entende que aquilo esteja a ser difícil, abrace-o sempre que for preciso, e diga-lhe que confia que ele vai conseguir lidar com a situação.

Ler também A importancia da Rotina e do sono para uma criança

Para terminar, é fundamental ​que os pais saibam que é seguro deixar o​s​ seu​s​ filho​s​ crescer. Não o​s​ est​ão​ a perder. A relação está apenas a transformar-se e ​a criança a fazer um caminho saudável.

​Como nota final, deixo o alerta de que se estas estratégias não forem suficientes, ou se houver outros sintomas associados (alimentação, auto-estima, comportamento, aprendizagem, etc.), ​então não deve hesit​ar em procurar a ajuda de um psicólogo. A questão pode ser mais profunda e é fundamental que não deixe o seu filho crescer logo à partida com estas dificuldades.

Antes de mais, é importante dizer que os gritos são uma manifestação frequente das birras. O grito, é na realidade uma manifestação da própria vida em si, de força, de intensidade, vitalidade e desejo de viver e ser livre. A verdade é que é para nós adultos, já “socializados” e obrigados desde cedo a controlar os nossos impulsos e manifestação emocionais, muito difícil gerir e acolher os gritos dos nossos filhos. Olhamos para os gritos como algo que incomoda, que perturba os outros e a nós mesmos. Algo intenso, que deve ser controlado desde logo. Na verdade, é uma questão cultural também. Noutros contextos culturais, os gritos fazem parte de rituais e festas. E, enquanto que por cá choramos baixinho, noutros países, um funeral sem gritos de dor bem audíveis, não é um funeral digno.

Ainda assim, não quer dizer que não possamos debruçar-nos sobre o assunto e tentar perceber se, efectivamente, é possível ou desejável fazer alguma coisa. Antes de mais, é importante começar pela prevenção (ler algumas estratégias aqui). Isso vai permitir diminuir a frequência das birras e, eventualmente,  reduzir a sua intensidade (esta última não é garantida). Em segundo lugar, é preciso entender a razão pela qual o seu filho escolhe especificamente os gritos intensos como “ponto forte” das suas birras. Podemos pôr algumas hipóteses:

– É uma questão de temperamento da própria criança e está enquadrado nesta etapa das birras de forma natural.

– É resultado da forma de comunicação que tem em casa. Se estiver rodeado de uma comunicação muito agressiva e com muitos gritos, a criança exterioriza depois toda essa tensão gritando ela também.

– É resultado da vivência das emoções na estrutura familiar. Por exemplo, pais que carregam emoções negativas e que as retraem no seu dia-a-dia, podem ver a criança manifestá-las no seu lugar (de forma mais descontrolada porque são demasiado pesadas para ela). Raiva, frustração e/ou depressões latentes nos pais, podem ser alguns exemplos.

– A criança grita porque resulta. Isto quer dizer que os pais, de alguma forma ou cedem ao pedido (mesmo que seja muito raramente) ou ficam focados na criança (o que é um ganho secundário da birra). Sendo assim, mesmo que o processo ocorra de forma inconsciente na criança, ela tende a usar as estratégias que são, ainda que sem querer, reforçadas pelos pais.

– Os gritos tocam numa sensibilidade natural dos pais. Estes, reagem intensa e emocionalmente, fixando, ainda que sem querer, a criança naquele comportamento. Neste caso, quer dizer que a criança encontrou algo a que os pais ou um dos pais é particularmente sensível. Este processo é inconsciente para ambos. Por um lado, a criança sente que a mãe/pai reagem de forma diferente quando surgem os gritos. E da parte dos pais, a reacção é mais intensa precisamente por ter essa sensibilidade. A causa dessa sensibilidade normalmente pertence ao passado dos pais. O segredo está em perceber porque é que é tão difícil para os pais ouvir os gritos do seu filho. O que é que isso lhes recorda? Em quê que isso mexe com os adultos? Quando eram pequenos gritavam? Como reagiriam os seus próprios pais se gritasse daquela maneira? Tinham liberdade para expressar livre e intensamente a zanga e a frustração? Estes impulsos eram imediatamente reprimidos?

Há que referir que estas são algumas hipóteses, existem outras e servem apenas para que os pais possam acima de tudo perceber o que é que está em jogo naqueles momentos. Quando as causas são externas, então devem ser trabalhadas e mudadas de forma a libertar a criança de algo que não é dela. Aí passará a viver as birras de forma mais livre e dentro daquilo que lhe é natural (sim… as birras não desaparecem magicamente). Se a razão por detrás dos gritos for o temperamento da criança, e a forma como esta exterioriza a frustração, a zanga e/ou tristeza, então aí, a sugestão será ajudá-la a transformar essa forma de reagir, noutra mais “evoluída” e que a família possa aceitar melhor.

As estratégias:

  1. Aceitar a criança tal como ela é e entender que naquele momento, está a lidar com emoções que ainda não consegue gerir e que a deixam desestabilizada e/ou até descontrolada. Ou seja, evite gritar, insultar, ameaçar, castigar.
  2. Acolher a energia que ela está a libertar através dos gritos, choro, etc. Para isso é importante perceber o que é que aquele momento representa para nós também.
  3. Seja o que for que tenha decidido, proibido, negado à criança e que tenha desencadeado a situação, mantenha-se firme e não ceda. Não é isso que a criança precisa de si. Precisa sim de perceber que os pais podem ser firmes mas sem ficarem eles mesmos desestabilizados e agressivos.
  4. Diga-lhe que com gritos e choro não consegue entender o que ela está a dizer e que, por isso, vai esperar que ela se acalme para poderem conversar. Diga isto de forma firme mas calma e depois evite continuar a falar (isso alimenta a continuidade e intensidade do momento).
  5. Fique por perto, mesmo que decida levá-lo para o quarto por exemplo, fique com ele. Mas não interaja com a criança até que esteja mais calma.
  6. Depois da criança estar calma, aí sim poderá conversar. Diga-lhe o que sentiu, e dê-lhe espaço para fazer o mesmo. Explique que quando está no momento da “birra” não consegue ajudá-lo e só pode esperar que se acalme. Que a birra não serve para que mude de ideias, mas que entende que seja a forma que tem de mostrar que está zangado. Diga-lhe que no entanto, existem outras maneiras de mostrar que se está zangado que podem ser melhores para todos.
  7. No momento em que já é possível conversar com a criança, pode ser necessário dizer-lhe que a birra vai ter consequências. Estas devem ser lógicas e associadas ao acontecimento. Por exemplo, se a birra acontece de manhã porque a criança não quer desligar a televisão para ir para a escola, então pode fazer sentido que na manhã seguinte não haja televisão. Para que continue a haver, é importante que a criança faça a sua parte de a desligar na hora combinada.

Desta forma, os pais vão ajudar a que a criança, gradualmente, encontre outras formas de se manifestar. Ao mesmo tempo, é importante entender que naquele momento ela ainda tem muita dificuldade em lidar com determinadas emoções e principalmente com a frustração. Mas se os pais não cederem, vai aprender que as consegue gerir cada vez melhor. Para isso, é também importante que os pais valorizarem os momentos em que os filhos conseguem acalmar-se e/ou sempre que estes usarem outras formas de agir.

Publicado originalmente no Blog Ana Guilhas Psicóloga

Se os olhos são “o espelho da alma”, os braços são os seus fieis executores. Os braços recebem, contêm.  Podem apertar, aprisionar, mas também podem libertar, deixando vir e deixando ir, ao ritmo do bebé, da criança, do adulto.

Com os (a)braços abrimo-nos ao outro e aceitamos recebê-lo e acolhê-lo em nós. Com os braços dizemos coisas simples como “eu estou aqui”, “aceito-te como és” e “quando fores, levarás este sentir dentro de ti”.

É por isso que devemos abraçar os nossos filhos. É por isso que nos devemos deixar abraçar. É por isso que os abraços são uma das melhores coisas do mundo. No abraço está a sintonia, a comunhão, o corpo rendido. E é por isso que os braços, têm um especial poder mágico. Não esquecendo, porém, que também com os olhos, o sorriso e a escuta, se pode abraçar a Alma de outro alguém.

Mas, estes mesmos braços, podem ainda viver em si fantasmas do passado e ansiedades do futuro. Só isso explica as inúmeras vezes que ainda se ouve dizer às mães: “não dês muito colo, olha que o bebé fica mal habituado” (como quem diz “cuidado com esse pequeno devorador de carinho”). Só isso explica que se guardem os abraços, “religiosamente”, para momentos específicos (casamentos, funerais, aniversários, etc), como se fosse necessário prevenir uma eventual escassez deste bem precioso. E também existem os braços que empurram, e empurram, e por mais que a criança volte (porque não é o seu tempo), os braços repetem para si mesmos “é importante autonomizar a criança”. Como se a autonomia de um Ser nascesse do desejo do outro (mãe/pai) e não de si mesmo (um contra senso).

Não deixe que os seus braços tenham medo, não deixe que os seus abraços sejam ansiosos mas, principalmente, não deixe que os seus braços estejam paralisados (por uma qualquer razão). O maior desafio não está em mudar, está em fazer escolhas. As nossas escolhas. Mas é também aí que está o maior poder. Na escolha do que queremos ser, ter e dar.  E nós pais, devemos perguntar a nós mesmos, como é que nos deixamos tocar. O que diz a nossa pele quando é tocada por outra pele? Como, e quem, é que eu abraço? Como, e por quem, me deixo abraçar?

E com as respostas a estas perguntas, podemos querer continuar, ou aprender, a fazer “magia”.

Um abraço bem apertadinho.

imagem@tavovaikas.lt

Cuidar de Quem Cuida dos Nossos Filhos

Dizemos frequentemente que as crianças mudaram, mas ainda que isso possa ser em parte verdade, na realidade fomos nós, adultos, que passámos a ver a infância com outros olhos. Fomos nós que, revendo-nos em criança e perspectivando o nosso futuro, passámos a desejar mais e melhor.

Desta transformação nasceu uma sede de conhecimento, uma necessidade de tornar consciente o que se fazia por instinto, a ambição de desvendar os “segredos” dos nossos filhos, e de dominar as estratégias para o “perfeito” desenvolvimento da criança.

No percurso, por vezes, esquecemos a melhor e maior aprendizagem das nossas próprias histórias de vida, que é o que todas as pessoas que cruzaram o nosso caminho nos deixaram.

O que é que nos marca mais na infância?

Ainda hoje me recordo daquela professora de substituição, que vi poucas vezes, mas cujos cabelos longos de cor cinza nunca vou esquecer, “só” porque me disse, num tom doce, o contrário do que sempre ouvira até ali. “Tens uma letra tão bonita”. Essas palavras nunca mais me deixaram, nem a doçura e a sabedoria com que foram ditas.

O que mais marca as nossas crianças não são os conhecimentos e o domínio de todas as suas etapas de desenvolvimento. O melhor que lhes podemos dar, são experiências emocionais gratificantes, saudáveis e equilibradas. E isso só se consegue através de relações de afecto.

No momento de pensarmos em quem está a cuidar das nossas crianças, é certo que se devem valorizar requisitos gerais, como gostar de crianças, ser paciente, ser responsável, ser criativo e ter os conhecimentos necessários para exercer a profissão. Mas o que é que faz que cada um de nós esteja disponível para dar respeito, carinho e atenção a outra pessoa? O que nos faz ter a capacidade de ouvir? Se, por um lado, existem as características inerentes à nossa personalidade, a verdade é que podemos ser dotados das melhores “qualidades”, mas não estarmos capazes de fazer uso delas.

Quem Cuida dos Nossos Filhos

Quem trabalha com crianças, trabalha com a relação, e a nossa capacidade de nos relacionarmos é afectada pelo nosso bem estar geral e a nossa saúde mental em particular.
Para que uma pessoa se possa dedicar e realizar um bom trabalho com crianças, é importante que tenha condições físicas e ambientais para isso. É importante que o número de crianças pelas quais é responsável, seja adequado. É preciso trabalhar em sintonia com as famílias (demasiadas vezes pais e professores agem como se tivessem interesses opostos). É preciso reconhecer e ver reconhecida a importância do seu trabalho.

Assim como em muitas outras profissões, quem trabalha com crianças tem que gerir na sua dimensão profissional as relações (tanto com colegas e chefias, como com as crianças e suas famílias), o desgaste inerente à própria actividade, factores de realização e/ou falta de reconhecimento e valorização do trabalho, factores da vida pessoal (saúde, finanças, conflitos familiares, etc.). No entanto, acresce a isto, um trabalho que envolve gestão de afectos, disponibilidade emocional e um agir (inevitavelmente influenciado pelo estado em que se encontra o cuidador) que resultam num maior ou menor bem estar das crianças.

Os professores, educadores e auxiliares.

É por isso que acredito que professores, educadores e auxiliares que amam, cuidam e respeitam as crianças, só o conseguem fazer se os respeitarmos, valorizarmos e cuidarmos. Professores, educadores e auxiliares que humilham, batem e por vezes até aterrorizam crianças, não é uma opção, e só acontece sob um olhar pouco atento (e cuidador) de todos nós.

Hoje, ultrapassámos a visão meramente funcional dos cuidados à criança, e não vivemos tranquilos apenas com o facto de um filho estar entregue a um adulto.
Faz sentido que sejamos mais exigentes na sua protecção (que é também a do nosso futuro). No entanto, querer mais, deve estar aliado a dar mais. Parece-me incoerente a crescente valorização da infância, com  uma simultânea desvalorização da função dos “cuidadores de infâncias” (amas, auxiliares, educadores de infância, professores, e tantos outros).

É importante continuarmos a preocupar-nos com o desenvolvimento físico e cognitivo da criança, sim. Mas, fundamental, é não esquecer a importância de um desenvolvimento emocional saudável.

É por isso que cuidar das nossas crianças é, também, estar atento e cuidar de quem cuida dos nossos filhos.

 

imagem@ifla.org

Recentemente, um pai dizia-se assustado, porque o colégio do filho (neste caso seguidor da pedagogia Waldorf) deixava as crianças subirem às árvores. Contudo, dizia conseguir compreender que era uma forma das crianças aprenderem com a queda. Reflectindo um pouco sobre esta questão, é fácil entender o registo em que nós, pais, ainda vivemos. Seja porque a deixamos subir para cair, seja porque não a deixamos de todo subir, assumimos à partida que a criança não consegue. Aparentemente, o sentimento que está na base da nossa escolha, enquanto educadores, é o de que a criança não é capaz. E assim lidamos com os nossos filhos, como se tivéssemos a certeza do seu fracasso ou incapacidade de viver determinadas situações.

E se pudéssemos olhar para as coisas num outro ponto de vista? Algo me diz que, se naquela escola se levasse uma criança ao hospital semanalmente, as coisas seriam diferentes. E se aceitarmos que, na realidade, as crianças podem subir às árvores, porque os educadores acreditam, pura e simplesmente, que elas são capazes de o fazer sem se magoarem? E, de repente, já não se trata de ensinar ou proteger, mas sim, libertar as crianças para que elas possam fazer o que verdadeiramente já são capazes de fazer. Nós ainda acreditamos que o nosso papel é, essencialmente, o de limitar e impedir. Nós ainda acreditamos que ensinar é pela negativa. A lógica ainda é a de que, se subir à árvore, a criança vai cair, e por isso vai aprender. No entanto, cada uma daquelas crianças está, sozinha, a aprender a subir, a agarrar-se bem,  a colocar os pés nos sítios certos (ou seja a proteger-se), a superar-se, a conhecer as suas potencialidades e capacidades, a acreditar em si mesma e, com isto tudo, ainda se diverte!

Nós, pais, dificilmente conseguimos deixar tudo isto acontecer, porque limitamos o mundo das nossas crianças, à partida e de acordo com os nossos próprios medos. Uma árvore é hoje assustadora, e falo por mim, que ficaria com o coração nas mãos se visse a minha filha a subir a uma árvore (ainda que o tivesse feito eu mesma, na infância). Mas na verdade, esta dificuldade dos pais em confiarem nas capacidades dos seus filhos, vai muito além – “Não corras que cais”, “não subas no banco”, “ainda não consegues comer sozinho”, “não sabes… não podes…”, são frases frequentes.

Há relativamente pouco tempo, a minha filha de 3 anos, disse-me “eu entro sozinha na banheira, mãe“, eu respondi-lhe, claro, para ela esperar um bocadinho que eu já a ajudava (assumindo à partida que ela ainda não conseguia). Quando me virei, já ela estava dentro da banheira e, com um sorriso enorme disse-me “vês mãe, eu consigo, eu disse-te”. Se dependesse de mim, estaríamos as duas mais uns valentes meses sem saber que ela já era capaz. Noutra situação, seguíamos na rua, com chuva, e ela decidiu passar entre dois postes mais apertados. Apressei-me logo a dizer-lhe, “filha, não consegues passar aí com o chapéu de chuva, anda por aqui…”, ela olhou em frente, parou, girou o chapéu e passou. Olhou para mim, feliz com o seu sucesso e lá me disse “eu consigui, mãe”. E eu pensei para mim mesma, “perdeste uma oportunidade de ficar calada…“. Deve ser muito estranho para uma criança ouvir um adulto dizer-lhe que ela não consegue fazer uma coisa, quando ela acredita, e sente, que consegue.

Em contrapartida, a minha filha começou a andar aos 9 meses porque acreditámos e deixámo-la experimentar. Logo depois, decidiu que andar não tinha piada e começou a correr para todo lado. Coração de mãe sofre, mas não lhe podia dizer que ela não era capaz! Começou a comer de talheres muito cedo, porque eles sempre estiveram lá, para quando ela quisesse experimentar. Deixo-a experimentar bastante, mas tenho plena consciência de que ainda a limito muito, baseada na minha crença (muitas vezes errada) de que ela ainda não é capaz sozinha.

As crianças não precisam de aprender a ser crianças, nós é que estamos a aprender a ser pais. Por isso é que vivemos tantas vezes inseguros e assustados. Por isso, os limites devemos impô-los a nos mesmos e estes devem ser definidos por uma auto-análise cuidada dos nossos receios (por vezes infundados), e da nossa necessidade de controlar a realidade dos nossos filhos. Porque a crença de que os estamos a proteger e a ensinar, esconde muitas vezes o medo que temos de falhar na sua protecção, e o medo de não sermos pais suficientemente bons. E com isto, pecamos muitas vezes pela sobre-protecção, e por nos substituirmos a eles na sua experiência da vida e do mundo.

Deixar o nosso filho correr para a estrada? Claro que não, somos adultos e perfeitamente capazes de usar o bom senso. Precisamos, acima de tudo, de perceber quais são os limites que fecham os nossos filhos numa sensação de incapacidade contínua, e distingui-los daqueles que efectivamente lhes permitem perceber que nós estamos cá para os proteger. O nossa responsabilidade não é só de impedir. É, muito mais ainda, de permitir e promover as conquistas. Precisamos, acima de tudo, de confiar nas nossas crianças, para que elas não acabem por perder a confiança que lhes é inata.

Por Ana Guilhas para Up To Kids®
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Gritos fortes à nascença são uma boa forma de garantir nota alta na primeira avaliação formal da vida, o índice de Apgar. Nos primeiros dias ainda achamos que os gritos são óptimos indicadores de vitalidade e personalidade no bebé. Gradualmente, vão nos parecendo, cada vez mais, um problema. Se estamos na rua, num restaurante, numa loja ou em casa com uma valente dor de cabeça, os gritos já não são bem-vindos, e já não arrancam propriamente um sorriso do rosto dos pais. De repente, gritar não é assim tão bom e a situação tem que ser “controlada”. Começam então a accionar-se  os mecanismos necessários para ensinar a “arte” da contenção. Algo que muitos adultos conhecem de bem perto.

E é mesmo dos adultos que eu quero falar… Actualmente, os pais vivem muito pressionados pelo politicamente correcto. Não se grita, não se bate, não se castiga, não se … No entanto, vivem também “atropelados” por uma vida centrada em trabalho, filhos e nas dificuldades do dia-a-dia. O espaço para se viverem a si mesmos é reduzido ou inexistente e isso, tem consequências. Cansaço e frustração acumulados, interferem com a paciência e a disponibilidade mental. De repente, às vezes quase sem darem por isso, estão a gritar (seja sozinhos, com a “cara metade” ou com os filhos). Depois, aparecem o desconforto e a culpa de terem gritado, de terem perdido o controle, de não terem contido a sua zanga.

Primeiro, é preciso perceber porque é que gritamos.

Gritar é querer viver! Tal como o fazemos à nascença anunciando que chegámos para ficar, e que trazemos connosco força e desejo de existir e de conquistarmos o nosso espaço. É isso que as crianças fazem sempre que gritam, mostram-nos que estão ali, dispostas a lutar pela sua existência, pelas suas necessidades. É isso que nós fazemos. Gritamos quando sentimos que não temos espaço, que não estamos seguros, que não estamos a viver de forma equilibrada e plena. Gritamos para nos fazermos ouvir, para nos ouvirmos a nós mesmos. Serve, acima de tudo, como um alerta do género, “eu não estou bem, ok?”. A verdade é que gostamos de acreditar que gritamos porque nos ajuda a descarregar, mas se assim fosse, depois de o fazermos, sentir-nos-iamos melhor. O que não acontece…

Afinal, porque é que é bom gritar?

Porque ali, naquele momento, surge a oportunidade de olharmos para nós mesmos. Temos a oportunidade de perceber que algo está a retirar espaço em nós. E com isso, passamos a ter a possibilidade de transformar a situação. É preciso saber que o desejável não é termos pais que se conseguem conter no seu desconforto (até um dia…). O que se pretende, é que os pais não gritem porque estão suficientemente bem para não precisarem de o fazer (pelo menos não de forma sistemática). Na realidade, eu diria até que são muitos os pais que estão a precisar de um bom grito de vida e de libertação.

Por outro lado, os gritos são bons na medida em que são verdadeiros. Põem à vista algo que é real e existe em nós, pais. E também não deixa de ser importante para os nossos filhos, conhecerem este nosso lado. Saberem que os pais também têm os seus limites. No meu entender, a luta que actualmente é travada contra os gritos, deve sim, ser redireccionada para os motivos que levam os pais a gritar.

E as razões podem ser muitas:

– Necessidade de mudar uma dinâmica familiar, em que as relações e os papeis se atropelam mais do que se entre-ajudam;

– Necessidade de mudar as práticas educativas, por não estarem a resultar positivamente para todos os elementos da família.

– Pode querer dizer que existe algo na nossa vida que devemos mudar, ou aprender a aceitar.

– Necessidade de auto-conhecimento ou de transformar algo em nós e na forma como nos vivemos a nós mesmos e às nossas emoções.

– Necessidade de ganhar novos recursos de comunicação e/ou gestão da zanga e da frustração.

– Necessidade de nos sentirmos mais felizes.

Então… se andamos a gritar muito, o que devemos fazer?

Quando nos apercebemos que andamos a gritar muito, normalmente o que fazemos é tentar perceber o que é que se passa de errado com as pessoas à nossa volta, nomeadamente os filhos. Até porque é tão mais fácil dizer que os nossos filhos nos dão “conta do juízo”. Mas, na verdade, a solução está na maior parte das vezes em nós.

Mas não basta fazermos um esforço para parar de gritar com os nossos filhos. É preciso, sim, olhar para as causas e intervir no que for necessário. Até porque muitos pais que “prendem” os gritos dentro de si, vêem depois os seus filhos gritar “desesperadamente” no seu lugar.

Ficam aqui algumas dicas:

– Conversar com os filhos sobre a situação vai ajudar a que todos voltem a estar em sintonia e a saber o que é que estão a sentir. Neste momento, será saudável um pedido de desculpas, que pode fazer sentido que venha de um ou dos dois lados – “Quero pedir-vos desculpas. Eu sei que a minha reacção foi muito exagerada. Gritei muito e disse-vos coisas de que me arrependo. Tive um dia mau. Vocês não paravam de discutir uns com os outros e eu, naquele momento, só consegui reagir daquela maneira. Agora estou mais calma e podemos falar…”.

– Tentar perceber a verdadeira razão  que está por detrás da situação (o estado emocional e a sua causa). Faça uma revisão ao seu dia e tente perceber o que há de comum aos momentos em que “perdeu a cabeça”.

– Trabalhar os seus níveis de assertividade vai ajudar a que haja mais clareza na comunicação familiar, e a exprimir melhor o que sente, assim como as suas necessidades. Em simultâneo estará a dar espaço para que os seus filhos aprendam a fazer o mesmo.

– Iniciar os procedimentos para a mudança. Considerando que os gritos não trazem benefícios nem para si nem para a relação, antes pelo contrário, prejudicam, deverá começar por procurar uma forma diferente de exteriorizar o que está a sentir. Muitas vezes passa por, em vez de começar a gritar, exprimir em voz alta o que está a acontecer consigo. Dar voz ao que o seu corpo está a sentir. “Hoje tive um dia mau, estou com dor de cabeça, e está a ser cada vez mais difícil para mim lidar com o barulho que estão a fazer”, por exemplo. Por um lado, estará a dar uma oportunidade aos seus filhos de perceber melhor a situação e de agir em conformidade, por outro, será mais fácil para eles lidar com uma explosão caso ela venha a acontecer e, finalmente, a exteriorização dos seus sentimentos ajuda a reduzir a tensão que estes lhe estão a provocar.

Quando menos esperava desatou a gritar desalmadamente com o seu filho?
Saiba que, desde que não permita que isso se transforme na sua forma de se comunicar e de se relacionar com os seus filhos, os “danos” não são irreversíveis. Pare, pense, sinta e aja. Não permita que os seus gritos sejam apenas ruído. Faça deles uma alavanca para a mudança!
Por Ana Guilhas, para Up To  Kids®

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Nos dias que correm, fala-se muito de comunicação positiva com a criança e do exercício de uma parentalidade com maior respeito pelos filhos e pelas suas necessidades. A forma como os pais exercem o seu papel está, desde há cerca de 50/60 anos, em profunda transformação. O que, com tudo de bom que possa ter (e tem!), traz consigo algumas armadilhas.

Hoje, o medo de ser (ou parecer) autoritário é tão grande que os pais têm imensa dificuldade em contrariar os filhos. Seja por receio de fazer deles crianças inibidas e prejudicar a sua livre expressão, seja para evitar o conflito ou por medo de “perder” o seu amor. De repente, fica no ar a ideia de que ser democrático, respeitar a criança, é convencê-la a fazer as coisas sem imposições. Mas fazer isto, visto assim, não é tarefa fácil. A sedução surge como a forma de “salvar” a situação. E, inadvertidamente passamos de um registo com consequências negativas, para outro igualmente mau e gerador de desequilíbrios.

Nas relações de sedução, os adultos pedem à criança “provas do seu amor”, como forma de eles mesmos continuarem a amar os seus filhos. Trata-se de condicionar o comportamento da criança de forma subtil, criando nela o desejo de agradar e corresponder. Tanto pais e criança sentem uma grande necessidade de constantemente agradar o outro. São usadas frequentemente expressões como “faz isto por mim”, “se fizeres isto és linda/o…”, “é para o teu bem…” e “vou ficar muito feliz/ triste se fizeres isto…”. São também usados elogios como “linda/o menina/o” ou pequenas chantagens como “se fizeres isto, dou-te x” para recompensar os comportamentos desejados.

Por que razão não deveremos fazer isto?

  1. Continua a ser uma forma de uso de poder e força (neste caso psicológicos) sobre a criança. É estabelecida uma relação pais-filhos de grande manipulação. É uma forma de submeter o outro às nossas necessidades, sem que ele assim o entenda. Uma forma de controlo.
  1. Aprisiona. Cria nos pais a expectativa de que o “bom filho” é aquele que continua a cumprir e a agradar. Cria na criança a necessidade de corresponder a essa expectativa sob pena de desiludir os pais e perder o seu amor. É penalizante para ambos os lados, porque não é possível, nem desejável, agradar e “cumprir” sempre (pelo menos sendo-se verdadeiro).
  1. Cria sentimentos de medo e culpa na criança, por sentir que não é “suficientemente boa” para ser amada pelos outros. O Amor é visto como condicional.
  1. A criança aprende a relacionar-se desta forma e vai ter dificuldades em estabelecer relações saudáveis com outras pessoas (que não aceitem essa forma de relacionamento). Pode, por um lado, reproduzir o modelo, tentando estabelecer relações de domínio sobre os amigos e namorados ou, pelo contrário, submeter-se aos desejos dos outros (amigos, namorados/as, chefes), para continuar a ser apreciada por eles. No futuro, as decisões que tomar para a sua vida estarão mais focadas no que os outros desejam para eles, do que naquilo que realmente gosta ou quer para si.
  1. Dá à criança uma ilusão de controlo sobre os limites. Acredita que quando cede, é porque ela assim o quis, e não porque tinha mesmo de ser. O que terá consequências difíceis para ela de suportar, quando perceber, fora da estrutura familiar, que na realidade o que não pode fazer, não pode mesmo. E que não passar de certos limites não se trata da criança decidir, ou não, agradar o outro.
  1. A manipulação inibe a criançade agir livremente e de acordo com a sua natureza. Desobedecer e/ou desafiar faz parte do processo de desenvolvimento e é saudável e desejável acontecer.
  1. A criança não entende nem interioriza as verdadeiras razões pelas quais deve ou não deve ter um determinado comportamento. É o “devo fazer isto porque faz os outros felizes” e não o “devo fazer isto porque é o mais correcto “.
  1. Pode levar a que na adolescência os filhos tentam “libertar-se” do domínio dos pais de forma mais violenta.

No entanto, há que relembrar que a sedução é parte integrante das relações Humanas e tem as suas vantagens. Só é “perigosa” quando se torna a forma privilegiada dos pais se relacionarem com os filhos. Principalmente quando é usada como forma de fugir ao exercício de autoridade e à imposição de limites claros a determinados comportamentos e/ou desejos da criança.

Existem muitas coisas a autorizar e outras tantas a proibir. Fazê-lo sem sermos pais agressivos ou sedutores é difícil, mas possível. O primeiro passo, é querê-lo.

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