A nossa filha já foi alvo deste comentário várias vezes. Geralmente vira a cara, encosta-se a mim e tente ignorar o interlocutor; são claros os seus sinais de desconforto. Para muitos, estes sinais são interpretados como um incentivo para continuar pois estão a ter na criança o efeito desejado.

Acredito que a maior parte das pessoas profere este género de comentários com a melhor das intenções, querem que a criança se livre da chucha e acreditam que ao repreenderem-na estão a ajudar os pais nesta árdua tarefa. Contudo, tal não funciona.

Irei dividir as minhas observações em duas partes: 1) Para os outros; 2) Para os pais.

1) Para os outros

Quantas vezes fumaram um cigarro e alguém vos disse que deviam “largar isso pois faz mal à saúde”?; quantas vezes vos disseram que se deviam afastar daquele/a amigo/a pois é uma má influência nas vossas vidas?; quantas vezes comerem fast food e alguém vos alertou que dessa forma iriam engordar? Em termos concretos, que resultados isso provocou em vocês? Atiraram o cigarro fora e nunca mais fumaram? Enviaram uma mensagem ao/à amigo/a dizendo que pretendiam terminar a amizade? Cuspiram o alimento que estavam a ingerir e desde então detestam-no? Provavelmente não. Nada mudou com os comentários que vos foram feitos ou eventualmente ainda se ligaram mais “ao fruto proibido” exactamente por isso.

Não existe mudança sem motivação e esta última tem de ser intrínseca, isto é, tem de partir do próprio, caso contrário a mudança será temporária. Comentários negativos, que muitas vezes enfatizam a incapacidade de auto-controlo da pessoa e mexem com a sua auto-estima (como quando dizemos a uma criança que é feia por determinado comportamento) podem conduzir à manutenção do comportamento por o outro se sentir incapaz de mudar.

“Devo então incentivar ou ignorar?”, perguntarão alguns. Nem uma, nem outra; podemos encaminhar para a mudança num registo positivo. Quando eu digo: “acredito que vais ser capaz, levarás o teu tempo mas acredito que irás conseguir”, sobretudo quando é dito em frente aos outros, estou a deixar uma semente potente de expectativa que o outro se sentirá tentado a concretizar; mostro que o aceito, que o compreendo, que não o irei pressionar e que confio nas suas capacidades (afago-lhe a auto-estima).

Criticar de forma negativa sem deixar uma linha orientadora ou é improfícuo ou pura maldade.

2) Para os pais

Sejamos sinceros, a maior parte dos comportamentos dos nossos filhos, sobretudo quando são pequenos, resultam de escolhas nossas, ainda que nos arrependamos delas ou que não as reconheçamos a 100%, estamos na origem.

A nossa filha não escolheu usar chucha, na verdade quando nasceu ela até a rejeitava. Acabei por insistir por sentir que isso a iria acalmar e servir de consolo. Hoje, com 2 anos e meio, não a quer largar, se eu permitisse passava o dia todo com ela na boca.

Temos conversado sobre o assunto, sem pressões. Não a comparo com o menino x ou y que não usa chucha pois ela também não me compara com a mãe x ou y Mostro-lhe que vários desenhos de que ela gosta não usam chucha (sem comparar), digo-lhe que não percebo o que ela diz com a chucha posta, explico que a chucha precisa de descansar e por vezes guardamo-la.

Em momentos de crítica em público eu JAMAIS me junto ao outro para a criticar/fazer troça dela. Geralmente coloco-me ao nível dela e respondo que um dia, quando lhe apetecer, irá largar a chucha e evidencio os esforços que já faz: “ela tem usado muito menos, noutro dia até a guardou no quarto durante a manhã toda, fiquei mesmo feliz! Em breve iremos conseguir passar menos tempo com a chucha na boca, vamos com calma”; se tiverem dito que ela é feia, ainda acrescento um “estás tão crescida e LINDA, filha!”.

Não acho que tenhamos sempre de defender os nossos filhos, eles erram tal como nós. Não obstante, acredito que os assuntos se resolvem entre nós e ainda que possa dar razão à pessoa que o repreende, não é saudável juntar-me a ela numa sessão de linchamento público.

Como referi, a nossa filha não queria usar chucha, foi um hábito criado também por mim. Assim, assumo essa responsabilidade, aceito que sou parte activa na sua resolução e defendo a nossa filha de qualquer julgamento exterior feito em tom negativo, mostrando que este não é um problema só dela, é nosso, e como tal iremos resolvê-lo JUNTAS, ao nosso ritmo.

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A maternidade é como a idade – bonito é fingir que não passamos por ela

Recordo-me perfeitamente de estar no final da gravidez da nossa filha – inchada, com asma resultante da gravidez, um refluxo que só me permitia dormir sentada, pés que pareciam batatas – e de repente aparecer na televisão a Kate Middleton, poucas horas depois de dar à luz pela segunda vez, em pé, na rua, com o recém-nascido ao colo, num maravilhoso vestido amarelo, com ar sereno de quem não tinha feito nada de especial nas últimas horas.

Senti de imediato a pressão para ter um pós-parto igual, até me senti uma drama queen por estar estatelada no sofá a respirar com dificuldade, quando aquela mulher depois de um parto estava ali firme e hirta, penteada e maquilhada.

Quando a nossa filha nasceu voltei a sentir que era menos capaz do que a Kate – no dia seguinte ainda precisava de uns bons 10 minutos para me levantar, arrastava-me pelo quarto, usava uma mola que mal prendia o cabelo, estava pálida e olheirenta e o único vestido que me apetecia usar era o vestido de noite largo e manchado de leite da noite anterior. Estava exausta, não queria tirar fotos nem esboçar sorrisos forçados, apenas permanecer encostada à nossa filha, a apreciá-la, com direito a dormitar pelo meio.

Estive rodeada de pessoas fabulosas, mas com o regresso a casa começaram os zumbidos de “agora tens de recuperar a tua forma“, “em breve a tua vida vai voltar à normalidade“, “tens de voltar a cuidar de ti como antes”.

Por que é que temos de fingir que não mudámos, que não nos tornámos mães? Por que é que temos de “voltar à normalidade” como se nada tivesse acontecido? A que se deve tanta pressa?

A maternidade e o pós-parto tornaram-se uma espécie de capítulo curto na vida das mulheres que deve ser rapidamente lido e encerrado, sem tempo nem espaço para o viver. É como se existisse uma competição subtilmente incutida de “ganha quem recuperar mais rápido a forma, retomar a sua rotina e transparecer não ter sido mãe!”.

Ser mãe não é um capítulo, é a própria história, um aspecto que estará presente em nós pela vida fora, diria até uma característica. Não é uma fase passageira, é um modo de vida, uma escolha que fizemos e que merece ser plenamente experienciada. Ser mãe é uma eclosão! Como qualquer mudança de vida significativa, exige tempo para lidarmos com todas as transformações inerentes, emoções mais e menos positivas, certezas e dúvidas, derrotas e vitórias. Por que nos levam a pensar que devemos passar por cima disto todas apressadas? Desde quando uma mudança tão importante deve ser vivida com ligeireza?

Sou mãe, jamais serei a mesma, não me peçam para fingir que nada mudou! O meu corpo ganhou um novo formato, aquele que permite à nossa filha encaixar-se perfeitamente nele, a minha vida ganhou outras prioridades, o meu coração cresceu desmedidamente, o meu pensamento foca-se em fazer a nossa filha feliz pois essa é para mim uma fonte de satisfação.

Claro que aos poucos me vou recuperando enquanto mulher, ganhei vagar e motivação para cuidar mais de mim, para esporadicamente sair a dois. Ainda assim, nada será igual, não é suposto ser! A nossa filha existe e faz parte de nós SEMPRE, mesmo quando não está presente.

Sou uma menina-mulher que se tornou mãe e que dois anos depois continua a aprender a desempenhar este papel. Estou em constante reconstrução, ganhei responsabilidades e a bênção de criar uma família.

Onde quer que me vejam, irão ver uma mulher que nunca mais descansou o mesmo, que se questiona sobre as suas práticas parentais, que cuida menos de si, mas que transporta nos seus olhos o brilho próprio de quem reconhece o valor da honra de ser mãe – não nos tentem tirar isto!

Esta é má e fria, não gosta de ninguém” – foi assim que uma mãe descreveu a filha a uma amiga que acabara de encontrar. A menina, com pouco mais de 1 ano, estava sentada no carrinho e ignorava a amiga da mãe, desejando apenas continuar a brincar com um coelho de peluche que trazia na mão. A amiga da mãe tentava desvalorizar, referindo que as crianças são assim, mas a mãe continuava: “esta miúda é parva, nunca cumprimenta ninguém! Olha, Joana, és feia, não gosto de ti!“. Confesso-vos que fiquei incomodada ao ponto de sair disparada da loja e as palavras me terem ecoado na cabeça durante a tarde toda.

As crianças não são feias, más, nem tão-pouco parvas

Em primeiro lugar, ninguém é, as pessoas estão a ser! Existe uma grande diferença entre “é” e “está a ser” – o “é” envolve rigidez, passa a mensagem de que será sempre assim e por isso não há possibilidade de mudança, criando um rótulo definitivo de “és isto” (esta expressão promove a rigidez cognitiva em que as pessoas analisam as situações em termos de tudo-ou-nada, não existe meio-termo); o “está a ser” transmite a ideia de que o comportamento depende das circunstâncias e que por isso pode alterar-se – numa situação, em determinado contexto, és assim, noutra já poderás não o ser – o que facilita a flexibilidade cognitiva (de pensamento), característica fundamental no bem-estar psicológico. Mais, o “é” cria uma determinada expectativa de comportamento tanto na criança como nos outros – a criança sabe que esperam que seja, por exemplo, agressiva e por isso tenderá a reproduzir esse género de comportamentos; os outros esperam ver agressividade na criança e por isso a sua atenção estará direccionada para isso (a chamada atenção selectiva em que o nosso cérebro, para poupar recursos, procura informação que se encaixe naquilo que procuramos; tal como quando entramos numa loja em busca de um vestido vermelho, se nos perguntarem se existiam muitos vestidos azuis não iremos conseguir responder, a nossa atenção foi canalizada apenas para a primeira cor).

Enquanto cuidadores existem comportamentos que consideramos mais e menos aceitáveis de acordo com as nossas crenças e aquilo que a sociedade defende. Reparem que comportamentos está a negrito pois é isso que está em causa, não a criança em si. Quando digo “já não gosto de ti” a uma criança que faz algo que considero menos adequado não estou a focar o seu comportamento, coloco-a integralmente em causa, o que abrange até as suas qualidades – parece-vos justo?

E se os nossos companheiros dissessem que já não gostam de nós porque não lavámos a loiça do jantar? E se a nossa mãe deixasse de nos amar devido à discussão que tivemos a semana passada? Repito: o que está em causa é o comportamento e podemos expressar o nosso desagrado relativamente a isso – “a mãe não gosta que te ponhas em cima da cadeira” – não em relação à criança em si.

Comunicar positivamente

Existem palavras cuja única função é magoar, nada se constrói com base nelas. “Feia, má, parva, burra” são apenas alguns exemplos de palavras que destroem a auto-estima de qualquer um, sobretudo quando proferidas por pessoas significativas cuja opinião é importante para nós. Além disso, são altamente subjectivas, difíceis de decifrar, e por isso em nada promovem a aprendizagem – O que torna uma criança feia? Que comportamentos levam a esse título? Será que a mensagem que queremos transmitir é que tem de se tornar bonita?

Sejamos objectivos no que queremos para que a criança se possa regular – “não quero que estejas em cima da cadeira pois podes magoar-te, fico preocupada contigo“. Depois disto é fundamental apresentar uma alternativa para onde a criança possa canalizar a sua energia – “vamos descer da cadeira, podemos ir brincar a saltar do chão para o tapete”.

Os elogios podem e devem ser aplicados sempre que se justifique. Noto que muitas vezes os pais passam grande parte do tempo a apontar os defeitos dos filhos em público, eu própria já me senti tentada a fazê-lo apenas por estar habituada a que seja esse o registo. Novamente, remetendo para nós próprios, gostaríamos que o nosso companheiro encontrasse um amigo na rua e começasse a apontar os nossos defeitos? Por que o fazemos com aqueles que mais amamos?

Que estes momentos sirvam para desabafar, e aqui podem expressar-se algumas preocupações, mas sejam sobretudo uma oportunidade de reconhecimento público do valor que os nossos filhos têm, daquilo que mais gostamos neles. Como referi, estamos a criar expectativas e isso irá moldar o comportamento da criança, além de promover o seu auto-conceito (como se caracteriza) e a sua auto-estima (como valoriza as suas características).

Por último, as crianças (felizmente) não são mini-adultos! Não esperem que uma criança prefira estar a interagir com uma desconhecida (no caso da amiga da mãe) do que com um brinquedo, não esperem que as crianças expressem afecto por encomenda (podem pedir, eu peço sempre que ela cumprimente as pessoas, mas sei que é natural que tal não aconteça), não ambicionem uma criança robótica que faz tudo que desejamos (se o faz hoje também o fará no futuro e aí já não terá tanta piada).

Percebam e respeitem a essência das vossas crianças, tal como elas aceitam diariamente a nossa.

imagem@tokkoro

Se escreverem a palavra maternidade num qualquer motor de busca irão reparar que a palavra culpa surge associada (estou a brincar, não faço ideia se isso acontece, apenas sei que tal se sucede na realidade). Assim que damos à luz aprendemos duas lições:

1) para o mundo a mãe é a principal responsável pelo bebé, o pai é apenas aquele assistente que “dá uma mãozinha”;

2) comportamentos “menos desejáveis” por parte do bebé são resultado da nossa pessoa (por nossa entenda-se exclusivamente da mãe).

Deste modo, rapidamente percebemos que o pai é um pobre coitado que nada pode fazer, um actor secundário numa peça protagonizada pela mãe; o bebé é um adereço, não lhe são atribuídas motivações nem características próprias, um ser que recebe passivamente a informação e a reproduz.

Quando te tornas mãe, além de um bebé ganhas uns quantos dedos apontados. Curiosamente, esses mesmos dedos desaparecem nos momentos de conquista e vitória, pois aí a “culpa” não te é atribuída – bem-vinda ao mundo dos dois pesos e duas medidas!

… Se o parto corre bem, o bebé é um valente, tiveste uma hora abençoada, a equipa médica era boa.

… Se o parto corre menos bem, não soubeste fazer força nos momentos certos, não tens elasticidade suficiente, não te soubeste impor.

… Se o bebé mama bem, é um comilão, um guloso, tu és uma sortuda.

… Se o bebé mama menos bem, o teu leite é fraco/não alimenta, os teus mamilos não têm um bom formato, produzes pouco leite.

… Se o bebé dorme a noite toda, é um dorminhoco, um anjinho, uma bênção.

… Se o bebé acorda durante a noite, o teu leite é fraco, não sabes treinar o sono dele (tens de o deixar chorar e dar-lhe menos colo).

… Se o bebé tem um bom desenvolvimento, é espertalhão, atento, malandreco.

… Se o bebé tem um desenvolvimento menos próximo da média, a mãe não teve os devidos cuidados durante a gravidez, não o soube estimular, protegeu-o em demasia.

… Se o bebé gosta de estar no chão, é dono do seu nariz, independente, um crescido.

… Se o bebé prefere estar no colo, está mal-habituado, é dependente da mãe.

… Se o bebé faz menos birras, é fácil de lidar, bem comportado, um pachola.

… Se o bebé faz mais birras, a mãe não soube impor limites, dar-lhe uma palmada na hora certa.

… Se a criança come bem, é bom garfo, tem boa boca, tem um apetite invejável.

… Se a criança come pouco, a mãe não tem mão para a cozinha, não faz comidas saborosas, põe pouco sal.

Podia escrever uma lista de situações digna de preencher um papiro, exemplos não faltariam. A culpa, atribuída por nós ou pelos outros, sobretudo no início em que nos sentimos mais inseguras, surge com frequência e sussurra-nos frases inquietantes ao ouvido. Nesse momento, agarra-a pelos cabelos, olha-a nos olhos e trata-a pelo nome – responsabilidade. Tu, tal como o pai, são responsáveis por aquele bebé (sim, este filme tem dois actores principais). A vossa principal responsabilidade consiste em darem o vosso melhor, o que é totalmente diferente de acertarem em tudo à primeira. Sim, tenho responsabilidade, tal como o pai (repito propositadamente), sobre vários comportamentos da nossa filha; já existiram birras que podia ter evitado, fases em que o sono era menos bom por comportamentos que eu mantinha, dias em que comeu menos bem por eu não ter compreendido o que ela queria. No meio de tudo isto existe a interferência das características da nossa filha – ela tem um temperamento próprio, tem preferências, já vai fazendo escolhas (sim, ela tem vontade própria). Além disso, existem os factores externos, que não são responsabilidade de ninguém, mas influenciam o modo como as situações se desenrolam (como por exemplo a nossa filha não ter feito a sesta por nesse dia existir um bailarico junto à nossa casa).

Por último, e mais importante, reparem que a responsabilidade também é vossa quando o vosso filho salta, corre, brinca, ri, sorri, é feliz. Esta responsabilidade não vos é apontada com a mesma frequência, o número de pessoas que vos diz “fazes esta criança tão feliz” é menor. Não obstante, acreditem que em cada salto, em cada correria pela casa, em cada brincadeira, em cada sorriso e em cada gargalhada essa responsabilidade está presente; um dia os vossos filhos irão traduzi-la em gestos e palavras de amor.

imagem@angeladuncken

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Desculpa dizê-lo de forma tão dura, mas não encontro outra maneira de o fazer. Não interessa se tens 18 ou 50 anos, se sempre conviveste com crianças ou se nunca estiveste perto de uma, se te sentes imensamente motivada para esta fase de vida ou não, se é o teu primeiro ou o terceiro filho, se a maternidade estava nos teus planos,  se tens muitos ou poucos recursos financeiros, se tens tudo a postos para a chegada do bebé ou se ainda nem pensaste no assunto.

Nada disto importa, nem altera o facto de não estares pronta para ser mãe.

Simplesmente não estás pronta.

Para ver o teu corpo mudar, ganhar novos contornos, deixar de assentar tão bem nas tuas roupas favoritas.

Para sentir enjoos, dores de costas, dores nas mamas, sono, azia; todo um role de sintomas desagradáveis.

Não estás pronta para as dores do parto.

Não estás pronta para passar noites em branco a dar de mamar ininterruptamente, a mudar fraldas, a lidar com cólicas ou dentes a nascer.

Para lidar com o choro do bebé horas a fio.

Para lidar com a incerteza, com a frustração de não compreenderes o que se passa com o teu bebé, o que podes fazer para o ajudar.

Não estás pronta para constatar que jamais serás a mãe perfeita que sempre imaginaste.

Para deixar de pensar apenas em ti, no que queres fazer, no que te apetece naquele momento.

Não estás pronta para lidar com o peso de cuidar sem pausas, sem folgas, nem feriados.

Não estás pronta para perder a tua identidade.

Existem ainda outras experiências para as quais não estás pronta e sobre as quais ninguém te falou:

Não estás pronta para ver o teu corpo alterar-se de modo a que o teu bebé se encaixe perfeitamente nele e retire daí tudo o que necessita – alimento, contacto, conforto e amor.

Para perceber que o teu corpo está preparado e saberá o que fazer no momento do parto.

Para sorrir cada vez que os vossos olhares se cruzam.

Para ficar sempre em segundo plano, mas ainda assim sentires que tens um dos papéis principais, um foco de luz que provém dos olhos do teu bebé e te segue onde quer que vás.

Não estás pronta para descobrir uma nova forma de liberdade, em que não podes fazer o que queres, quando queres, mas em que aprendes a tirar o máximo de prazer de pequenos momentos.

Não estás pronta para esquecer o peso de cuidar sem pausas, sem folgas, nem feriados, com apenas um sorriso, um toque suave daquela mão pequenina no teu rosto, um “mamã” dito de olhos a brilhar.

Para te habituares a sair de casa cheia de mochilas, lanches e outros mimos, ao ponto de deixar de fazer sentido sair de casa só com a tua mala.

Não estás pronta para colocar tudo o que sempre acreditaste em causa e descobrir novas formas de agir e educar.

Para perceberes que não queres ser a mãe perfeita que sempre imaginaste mas sim a melhor mãe que consegues ser, aquela que o teu bebé precisa, uma mãe real que tem a humildade de aprender diariamente.

Não estás pronta para descobrir que tens em ti uma bússola valiosa – o teu instinto – que te irá guiar nesta aventura e conduzir a novos destinos (competências).

Para passar madrugadas a contemplar cada detalhe do teu bebé apesar do imenso sono.

Não estás pronta para ganhar um propósito na vida, encontrar resposta para aquelas dúvidas existenciais que sempre te assolaram.

Para perder a tua identidade, vê-la a transformar-se e a partir daí surgir algo novo que reúne maravilhosamente os teus papéis antigos e mais recentes.

Não estás pronta para perceber que tens junto a ti tudo o que precisas.

Para constatar que parte de ti passou a viver fora do teu corpo, e onde quer que vá tu também irás.

Não estás pronta para sentir tanto amor ao ponto de te doer o peito.

Não estás pronta para um simples abraço transformar os dias mais negros em dias luminosos.

Para passar o dia a pensar no quanto amas aquela pessoa, para sentires saudades mesmo quando a tens ao lado.

Não estás pronta para perceber que todo o teu percurso faz sentido – os talvez, as saborosas conquistas, as dolorosas perdas – tudo te conduziu a este ponto, a este lugar, a este grande amor.

Não estás pronta para ser mãe, na verdade não precisas de estar. É impossível sentirmo-nos preparadas para algo que não conhecemos. Além disso, o amor flui, não se treina nem se “prepara”.

imagem@wattpad

Amamentar é daquelas coisas que tem tanto de simples como de complicado. Se por um lado dispomos de equipamento para o efeito – leia-se mamas – por outro trata-se de uma actividade nova para as partes envolvidas – a mãe nunca usou as suas mamas como fonte de alimento, o bebé nunca precisou de fazer nada para se alimentar, limitava-se a receber o alimento necessário através do cordão umbilical.

No nosso caso, foi complicado. A Letícia nasceu quase prematura, tinha os valores da glicémia baixos (esteve quase a ir para a incubadora) e por isso, depois de ter mamado o meu leite, bebeu leite artificial (LA). Mais, tinha imensa dificuldade em permanecer acordada para mamar e em fazer a pega (colocava o lábio inferior para dentro). No hospital (privado) foram incansáveis, apareciam constantemente no quarto para assegurar que a pega estava a ser bem feita, para vigiar se o leite já tinha subido/descido (ao início produzes colostro, um líquido amarelado ou transparente) e para me motivarem.

Embora no hospital tenha dado sempre leite materno (LM) e de seguida LA, em casa decidi investir mais no primeiro. Dava LM, ela adormecia, acordava pouco tempo depois a querer mamar; na altura diziam-me que devia fazer intervalos, criar horários – tudo errado!

Na primeira consulta de pediatria a nossa filha tinha perdido peso, o que para um bebé que desde o nascimento se enquadrava no percentil 15 era péssimo. Chorei muito, senti-me a pior mãe do mundo por ter insistido no LM; a pediatra deu-nos duas alternativas: abandonar o LM ou continuar a dar entre o LA. Nos dias seguintes, com o aumento de consumo do LA, notava-se um desinteresse cada vez maior pelo LM, como resultado eu produzia cada vez menos; sentia-me triste porque adorava dar de mamar (aquele momento só nosso de pele com pele) e por acreditar que o meu leite era o alimento ideal para a nossa filha. Estava prestes a desistir quando recebi uma mensagem no facebook de uma prima do meu primo (daquelas pessoas simpáticas com quem raramente nos cruzamos) que dizia algo deste género: “Olá, Tânia! Espero que tudo esteja a correr bem. Não sei se sabes que me tornei conselheira de aleitamento materno, se precisares de alguma coisa, avisa“. Lembro-me de ter chorado de tão feliz que fiquei, aquela pessoa surgia no meu caminho na hora exacta.

A primeira sessão com a Cristina (a tal prima) foi fantástica – ouviu-me, acarinhou-me, sugeriu e deixou-me escolher o caminho que iríamos seguir. Contrariamente ao que me diziam, a Cristina explicou-me e provou-me (enviou material de apoio) as vantagens de amamentar em livre demanda (sempre que o bebé quer); tal também faria com que a minha produção aumentasse. Confesso-vos que as primeiras noites foram terríveis, enquanto com o LA ela mamava e dormia várias horas seguidas, com o LM tinha de acordar constantemente para dar de mamar (no início chegou a ser de 30 em 30 minutos). Gradualmente a produção foi aumentando, passei a ter de acordar menos vezes e a dar menos LA.

Contra todas as expectativas, a nossa filha mamou até aos 12 meses, altura em que, com muita pena minha, fez o desmame natural.

Dar de mamar foi das experiências mais maravilhosas e duras da minha vida. Gostava de ter sido avisada sobre alguns aspectos desde o início, de dispor de várias alternativas que só mais tarde descobri. Posto isto, deixo-vos uma lista com as aprendizagens que fui fazendo (sobretudo com a ajuda da conselheira em aleitamento materno) e que poderão fazer a diferença entre uma amamentação feliz e uma amamentação abandonada precocemente.

1 -Prepara-te para que não acertar à primeira.
O bebé está programado para mamar, a tua mama está programada para dar leite, ainda assim nem tudo flui imediatamente. O bebé pode ter dificuldade em fazer a pega, pode ter tendência a adormecer assim que começa a mamar, entre outros; os teus mamilos podem ter um formato que não facilita a amamentação (com ajuda tal poderá ser contornado, evita recorrer de imediato aos bicos de silicone que tornam a sucção mais complicada e podem reter o leite), podem ter mais tendência a formar gretas, etc. Com o tempo (pode demorar!) vais dominar isto e perceber o que resulta com vocês.

2 – Dá de mamar sempre que o bebé quiser.
Não te foques em horários, em criar intervalos e rotinas, tudo isso surgirá naturalmente. O teu bebé necessita de se alimentar e, tal como todos nós, terá o seu ritmo de o fazer – há quem coma pouco em cada refeição, e por isso coma mais vezes ao dia, há quem coma mais em cada refeição, e por isso coma menos vezes ao dia. Além disso, o bebé mama de acordo com as suas necessidades em cada fase e será deste modo que as tuas mamas irão perceber a quantidade de leite que precisam de produzir.

3 – “As mamas não são armazéns, são fábricas”.
Esta frase da Cristina é mágica e libertadora! Quando começares a amamentar irás reparar que nos segundos que antecedem a mamada as tuas mamas parecem ter silicone de tão grandes e rijas que ficam; no final apenas te restarão duas uvas passa, moles e sem graça. Quando o bebé pede novamente para mamar e as tuas mamas ainda estão em modo uva passa sentirás que estás a produzir pouco, que ainda não tens leite suficiente para o alimentar, o que é altamente stressante. Eis que surge a Cristina com a explicação de que as nossas mamas não funcionam como armazéns, elas vão produzindo leite enquanto o bebé mama, pelo que uma mama aparentemente vazia não é uma mama inútil.

4 – Quanto mais os bebés mamam, mais leite produzimos.
Este princípio é básico mas menos óbvio do que se possa imaginar. Se sentes que estás a produzir pouco, permite que o bebé mame mais vezes ou, em último caso, recorre a uma bomba tira-leite (deverás ter muito cuidado para não começares a produzir demasiado leite e entrares num círculo vicioso em que por produzires demais tens de tirar com a bomba e ao tirar  vais produzir ainda mais).

5 – O vosso conforto é fundamental.
Apanha as almofadas todas que andem aí por casa e constrói um castelo de almofadas que te permitam (e ao bebé) sentir confortável enquanto amamentas – nas costas, por baixo dos braços, no colo, vale tudo.

6 – Respira, relaxa e aproveita o momento.
Enquanto a prolactina é a responsável pela produção de leite, a ocitocina, conhecida pela hormona do amor (é a que está também ligada aos orgasmos) é responsável por estimular a produção de prolactina e permitir que o tecido mamário se contraia de forma a que o leite passe pelas glândulas mamárias; traduzido por miúdos, a amamentação será mais fácil se estiveres relaxada pois a produção de ocitocina acontecerá de forma mais natural. Andares preocupada por teres “pouco leite” contribui para que tal aconteça.

7 – Não existem leites fracos, nem insuficientes, nem que alimentam pouco.
Vais ouvir esta frase várias vezes, sobretudo quando o bebé chora, mesmo que por  outro motivo. O teu leite é óptimo, tem tudo o que o teu bebé necessita, nas quantidades exactas. Como referi, existem bebés que precisam de comer mais do que outros, que querem mamar como forma de consolo, entre tantas outras opções que em nada colocam em causa a qualidade do teu leite.

8 – Inicia a mamada na mama em que terminaste.
Não me irei alargar em explicações técnicas, até porque não estou qualificada para isso, só quero transmitir a ideia de que enquanto amamentas a composição do leite vai-se alterando – inicialmente produzes um leite mais aguado, destinado a saciar a sede do bebé, ao passo que no final da mamada o leite torna-se mais rico em gordura e possui mais nutrientes e calorias. Se o bebé não esvaziar a mama e iniciar a mamada seguinte na outra mama poderá não chegar novamente à fase do leite mais rico em gordura; para evitar que tal suceda, deverás começar pela mama em que mamou da última vez.

9 – Existem dezenas de posições para dar de mamar.
Recordo-me perfeitamente do dia em que a Cristina me perguntou se já tinha experimentado dar de mamar noutras posições – “como assim, outras posições?!”, perguntei eu completamente baralhada. Sim, existe uma espécie de “mamasutra” a que podes recorrer, com posições que poderão ser mais confortáveis do que a posição tradicional que sempre nos foi imposta. No nosso caso, a Leti mamar sentada (posição cavalinho) permitia que ficasse mais desperta e bolsasse muito menos no final

10 – Cuida bem dos teus mamilos.
Dares de mamar com mamilos feridos/gretados pode tornar-se impossível. Deste modo, coloca algumas gotas do teu próprio leite ou usa um creme adequado.

11 – A amamentação nocturna é importante.
Conheço alguns casos de mães que decidiram “saltar” as mamadas da noite, dando LA, o que rapidamente condicionou a sua produção de leite. Durante a noite os níveis de prolactina atingem o seu pico, pelo que é fundamental dar de mamar neste período.

12 – Não laves as mamas antes de amamentar.
A mama tem um cheiro próprio que incentiva o bebé a mamar, retirá-lo não é proveitoso.

13 – Podes sentir o útero a contrair durante a amamentação.
Não te preocupes, é desejável que assim seja! Amamentar facilita a contracção do útero, isto é, que regresse ao seu tamanho original (já não precisas de um útero todo dilatado).

14 – “Passei o dia a dar de mamar”.
Poderão existir dias em que andarás de mamas ao léu por saberes que dentro de momentos darás de mamar de novo, em que sentirás que passaste o dia a dar de mamar, em que te questionarás se amamentar é assim tão importante – é natural, senti o mesmo. Não obstante, são momentos de cansaço que passam, contrariamente aos benefícios da amamentação que duram uma vida inteira.

15 – Pede ajuda, não serás menos mãe por isso.
Sem ajuda provavelmente a nossa aventura no mundo da amamentação teria durado menos de 1 mês. Se tens dúvidas, se notas que a amamentação poderia correr de forma diferente, procura ajuda profissional. Existem grupos no facebook dedicados ao aleitamento materno (embora alguns deles sejam compostos por pessoas fundamentalistas), a rede amamenta, as Cam’s de Portugal  e as conselheiras em aleitamento materno em carne e osso.

16 – Amamentar deverá ser prazeroso para ambos.
Não o será todos os dias, em todos os momentos, pelo menos convém que seja na sua maioria. Se chegaste a um ponto em que já tentaste de tudo, em que sentes que realmente não está a ser proveitoso nem para ti nem para o bebé, tens direito a não querer prosseguir (na verdade tens direito logo desde o início). O LM é fundamental para o bebé, mas a felicidade e o bem-estar da mãe são mais.

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Tudo o que preciso de saber sobre : a minha Gravidez e a Amamentação !

 

 

Game of Thrones – Versão mães

Adoras aqueles episódios emocionantes que te deixam colada ao ecrã e te levavam às lágrimas cada vez que termina uma temporada? Se és mãe, tenho uma excelente notícia para ti – não precisas de esperar pelo próximo episódio! Na verdade, tu fazes parte da série. Nunca tinhas reparado?! Não faz mal, já vais perceber do que falo.

Todos sabemos que “quando nasce um bebé, nasce uma mãe“. O que poucos sabem é que as mães vivem em reinos que se distinguem pelas suas crenças e convicções. Alguns destes reinos são mais hostis, outros mais pacíficos, mas quase todos partilham uma guerra antiga – o desejo de conquistar a coroa dos 7 reinos, aquela que lhes confere o título de “Melhores Mães de Sempre”.

Talvez te estejas a questionar sobre o local  onde se dão as batalhas. Basta entrares num grupo de facebook direccionado para mães ou em páginas dedicadas à maternidade para assistires a lutas sanguinárias, daquelas em que vale tudo, até arrancar olhos, e onde um post simples como “o rabinho do meu bebé está assado, que creme recomendam?” termina com frases como “isso só aconteceu porque não teve cuidado nenhum, a culpa é completamente sua, aposto que também tem o rabo assado“.

As personagens dos diferentes reinos andam sempre à espreita, de segunda a domingo, esperando ansiosamente que surja um post que lhes permita atacar sem dó nem piedade, defendendo as cores (crenças) da bandeira do seu reino.

Provavelmente já estão a conseguir identificar alguns dos reinos rivais a que me refiro. Ainda assim, permitam-me que os (re)apresente.

1 – Reino da Amamentação vs. Reino da não-Amamentação

Estes reinos andam constantemente de costas voltadas. Num dos lados vivem as mães que de peito inchado (literalmente) defendem a amamentação, que comparam o leite materno a ouro e aproveitam qualquer conversa para mostrar que são umas survivers, que “só não dá de mamar quem não se esforça“, que as “gajas do reino ao lado são negligentes, estão a criar crianças anafadas e que irão estar sempre doentes“. No outro lado vivem as mães que dão leite artificial; estas acham as primeiras umas histéricas, obcecadas, umas imaturas que cheiram a leite (literalmente), e que no fundo têm inveja dos peitinhos firmes e orientados para Norte das mães que vivem neste reino.

2 – Reino do Parto Natural vs. Reino da Cesariana

A verdadeira mãe é aquela que vive as dores do parto, que tem de fazer força para dar à luz e que no dia seguinte tem dores em baixo e não se consegue sentar– isto são algumas das frases que ouves nas ruas do Reino do Parto Natural. Dentro deste reino existem diferentes graus de mérito – em primeiro lugar, o parto natural sem epidural e sem pontos (estas são as “máiores”); em segundo lugar, aquelas que cumpriram um destes dois critérios; por último, as que não cumpriram nenhum, vistas como as mais fraquinhas da classe. Ainda assim, nada se compara às cobardes do reino rival, aquelas dondocas que se limitam a deitar na marquesa para dar à luz, umas mimadas a quem a vida é facilitada e que não vivem verdadeiramente a experiência de ser mãe.

No Reino da Cesariana riem-se dos comentários das vizinhas e tratam-nas como umas frustradas, umas traumatizadas que sofreram horrores nos partos, umas mal resolvidas cujo pipi já deu tudo o que tinha para dar.

3 – Reino das Papas Compradas vs. Reino das Papas Caseiras

Assim que uma mãe do Reino das Papas Compradas cria um post a perguntar se determinado sabor/marca de papa comprada no hipermercado é geralmente bem aceite pelos bebés, as rivais do Reino das Papas Caseiras surgem como tubarões que cheiraram sangue, atiram-se e mordem sem grandes ponderações – chovem culpabilizações, suposições de que a criança será um obeso miserável e sem auto-estima, palavras técnicas como maltodextrina, receitas de papas caseiras, acusações de que as tipas que dão papas compradas são umas preguiçosas, e um manancial de estudos que fundamentam todas as afirmações anteriormente feitas.

No reino vizinho acreditam que as inimigas passam a vida na cozinha e que para preparar as tais papas caseiras de que tanto se gabam não têm tempo para brincar com os filhos, são uma espécie de hippies que querem tudo natural mas que provavelmente ao cair da noite se enchem de chocolates e gomas para compensar as horas de tédio passadas à procura de estudos para usar como arma.

4 – Reino do Corpinho Pós-Parto Fantástico vs. Reino do Corpinho Pós-Parto em Recuperação

“Ela é” fotos de costas a mostrar um glúteo firme ao ponto de lhe tocar na nuca, “ela é” fotos a mostrar um six-pack utilizado como base para o filhote fazer escalada, tudo isto publicado nos grupos de mães com frases do género: “saí hoje da maternidade e já estou assim“. As “amigas” do reino ao lado, cujo corpo precisa de mais tempo para se ir recuperando, trocam mensagens privadas onde abundam palavras/frases como “convencida, snobe, cuida do corpo porque não cuida do filho, assim também eu“. Do outro lado, as vizinhas que criam aquele género de posts acham as rivais umas preguiçosas, que não cuidam de si, que acham que ser mãe serve como desculpa para se desleixarem, e que por isso precisam desta motivação extra.

5 – Reino do Dorme Connosco vs. Reino do Dorme no Berço

Se o teu filhote dorme contigo, não o digas a alguém do Reino do Dorme no Berço – vão aproveitar para dizer que estás a criar uma criança dependente, incapaz de estar sozinha, um fedelho mimado que se por acaso dormir menos bem receberá logo a justificação de que “isso acontece porque não o habituaram a dormir no berço“; podem até levar-te a pensar que tens uma perturbação qualquer que te impede de te separares momentaneamente da cria.

No outro reino as críticas ao primeiro também abundam, estes defendem que os pais que não partilham a cama com os filhos não se preocupam em criar laços, são frios e distantes, estão a fomentar nas crias um sentimento de abandono e rejeição capaz de explicar várias dificuldades que estas demonstram (“se dormisse com vocês nada disto aconteceria)”.

6 – Reino do Contra Tudo e Contra Todos Só Porque Sim

Este reino está em guerra constante com os restantes. As personagens que aqui habitam não defendem nenhuma “doutrina” em específico, a sua missão é apenas lançar o caos e contrariar tudo e todos só porque sim (daí o nome do reino). Se lhes falarem nas vantagens da amamentação, estas irão apresentar 1001 argumentos contra, se lhes falarem nas desvantagens da amamentação, irão buscar estudos que abordam “as 10 grandes vantagens de amamentar”. Num mesmo dia são capazes de aparecer em diferentes locais com posições opostas, não há limites, desde que se crie uma discussão séria a sua missão está cumprida.

Frequentemente estas personagens vivem infiltradas nos diversos reinos, esperando nas sombras que surja um tópico mais polémico que lhes permita dizer “não concordo!“. Depois de lançarem o seu veneno, afastam-se de mansinho e admiram ao longe as batalhas campais entre as restantes intervenientes; quando não têm esta oportunidade, lançam o tema e esperam, montando uma teia traiçoeira onde as mães dos outros reinos caem sem que se apercebam.

7 – Reino das Mães Livres

Contrariamente aos restantes reinos, aqui não existem guerras, nem ninguém ambiciona a coroa de “Melhor Mãe de Sempre”. Pelas ruas podem-se encontrar mães que fugiram de todos os reinos (excepto do 6!), convivendo de forma saudável e feliz. Não importa se dás LM ou LA, papas caseiras ou papas compradas, se partilhas a cama com o teu filhote ou não, se o teu corpo se está a recuperar mais ou menos depressa. O lema é “só tu sabes o que é melhor para o teu bebé”, por isso ninguém se mete na vida alheia, nem vive a pretensão de se achar capaz de determinar aquilo que é ou não melhor para os outros (até porque têm vida própria e muito com que se ocupar). Se virem algo que mexe com tudo aquilo em que acreditam, percebendo que existe abertura por parte da outra mãe, partilham esse sentimento, contudo sem tentar impor a sua posição – como poderiam impor algo sem conhecer aquele bebé, aquela mãe, aquela relação, aquela família, aquele meio?

Limitam-se a viver livres de pressupostos, da necessidade de ter razão e de fazer as suas opiniões prevalecer. Apenas cuidam dos seus o melhor que podem, um dia de cada vez, sabendo que deixaram de ser mães perfeitas no dia em que o seu bebé nasceu.

imagem@fanpop.com

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Olha-me aquela mãe…

… a dar de mamar sem se tapar, sem se ir esconder num canto, que falta de decoro!

… a dar de mamar com o bebé todo tapado, todo abafado, pobre criança!

Olha-me aquela mãe…

… sempre com o bebé ao colo, não o deixa chorar, vai crescer mimado e dependente!

… a deixar o bebé chorar, que horror, vai crescer a sentir que não teve o amor da mãe!

Olha-me aquela mãe…

… a dar banho ao bebé todos os dias, nem deixa a pele repousar!

… a dar banho ao bebé dia sim dia não, que falta de higiene!

Olha-me aquela mãe…

… a deixar a miúda mexer na terra e sujar-se toda, está a crescer sem limites!

… a proibir a miúda de mexer na terra, vai crescer a sentir-se aprisionada!

Olha-me aquela mãe…

… a deixar-se engordar durante a gravidez, está mesmo a desleixar-se!

… a manter-se magra durante a gravidez, o bebé assim não vai crescer!

Olha-me aquela mãe…

… o dia inteiro em casa e tem tudo em pantanas, que preguiçosa!

… tem a casa sempre impecável, não deve ligar nenhuma ao bebé!

Olha-me aquela mãe…

… a escolher pessoas da família para padrinhos, esses já têm o grau de parentesco a uni-los!

… a escolher amigos para padrinhos, a família deve estar sempre em primeiro!

Olha-me aquela mãe…

… a deixar que toda a gente pegue no bebé, de colo em colo, ele assim fica agitado!

… sempre a fugir com o bebé para que ninguém lhe pegue, aposto que vai ser um anti-social!

Olha-me aquela mãe…

… a deixar o bebé dormir na cama dos pais, eles habituam-se e jamais irão para a deles!

… a pôr um bebé tão pequeno no berço, eles precisam tanto de estar em contacto com os pais!

Olha-me aquela mãe…

… a obrigar todos a lavarem as mãos antes de tocarem no bebé, ele assim não ganha defesas!

… a deixar que todos mexam no bebé sem lavarem as mãos, ele assim vai adoecer!

Olha-me aquela mãe…

… vai jantar fora com o marido e deixa o bebé tão pequenino abandonado ao cuidado dos outros!

… sempre fechada em casa, nunca sai para jantar, não larga o bebé, está obcecada!

Olha-me aquela mãe…

… a furar as orelhas do bebé, a sujeitá-lo a tanta dor só por vaidosice!

… a adiar furar as orelhas do bebé, depois custa-lhes mais!

Olha-me aquela mãe…

… sempre a dar a chucha ao bebé, vai ficar com os dentes todos tortos!

… a esconder a chucha do bebé, pobrezinho, não tem com o que se consolar!

Olha-me aquela mãe…

… a falar calmamente com a filha enquanto esta faz uma birra enorme, que crianças tão mimadas!

… a dar uma palmada à filha só porque fez uma birra, não tem paciência nenhuma!

Aos olhos de alguns vais ser sempre “aquela mãe”. Cabe-te decidir se queres ser “aquela mãe” que faz o que os outros acham certo, indo muitas vezes contra o seu instinto e tudo aquilo em que acredita, ou “aquela mãe” que, ainda que sendo criticada, é feliz e faz os seus filhos felizes.

Confia em ti, mesmo que por vezes sintas que estás a fazer asneira.
Tu és capaz, não vais acertar à primeira, por vezes nem à terceira. Com o tempo vais perceber o que resulta com vocês, quais são as opiniões que vale a pena escutar e aproveitar e quais as que devem ser recebidas a sorrir e acenar (como os pinguins do Madagáscar) enquanto por dentro mandas a pessoa ir comer um peixe balão mal confeccionado. Independentemente do caminho que escolhes seguir, do tipo de práticas parentais com que te identificas, jamais serás compreendida por todos. O que uns aplaudem, outros apupam; não faz mal que assim seja, os únicos aplausos de que precisas são os dos teus filhos, aqueles que se traduzem em sorrisos e gestos de amor e te ecoam na cabeça quando à noite a pousas na almofada.

imagem@read01.com

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Este é um assunto que afecta imensos casais, que é fortemente abordado na literatura, contudo na realidade parece não afectar ninguém pelo menos até se tornar público que a Maria e o João se separaram.

A diminuição da felicidade que a relação conjugal nos traz, habitualmente tratada por satisfação conjugal, continua a ser um tema tabu que funciona como uma pescadinha de rabo na boca – ao não ser falado faz com que as pessoas sintam que não é suposto falar sobre isto, logo ninguém toca no assunto.

Por que é que são poucos os casais que assumem que o nascimento do bebé os afastou? Penso que existem vários motivos – entre sentirem que estão a culpar o bebé, algo tão positivo nas suas vidas, por um acontecimento negativo; passando pelo sentimento de vergonha em admiti-lo (se ninguém fala no assunto é porque somos o único casal a passar por isto); até à crença que desenvolvemos de que as famílias têm de ser felizes quando nasce um bebé, tal como a Disney nos ensinou nas suas histórias.

São vários os estudos que confirmam que nos primeiros anos de vida o bem-estar do casal é inferior comparativamente a casais da mesma idade que não têm filhos. Não se preocupem, existem boas notícias: à medida que as crianças crescem o nosso bem-estar torna-se superior ao desses casais sem filhos (Toma! Vai buscar!). Resumindo, com o tempo vamos sentir-nos melhor, só precisamos disso mesmo – de tempo!

Nos primeiros tempos de vida do bebé dedicamo-nos quase em exclusivo a ser mães. Aprendemos a ser mães, a fazer actividades de mães, a conciliar as novas tarefas com outras (domésticas) que já desempenhávamos, a centrar o nosso tempo e recursos no bebé. Naturalmente, investimos tanto neste papel que deixamos de ter vontade, paciência e/ou energia para cuidar igualmente dos outros papéis que protagonizamos. Geralmente, a Mulher fica esquecida e com ela leva as memórias dos motivos pelos quais o nosso companheiro já nos fez tão felizes. Quanto mais permitimos que esse afastamento aconteça, mais sentimos que perdemos pontos em comum e passamos a vê-lo como o bebé o vê – apenas como pai.

Enquanto alguém que passou por tudo isto na “pele”, gostava de vos deixar algumas palavras de ânimo e dicas que talvez possam ajudar:

1- Vocês não estão sozinhos!

Acreditem que mais perto do que imaginam existe um casal a passar pelo mesmo, a sentir essa tristeza por já não sentir uma ligação tão forte entre si. Aceitem esses sentimentos, tentem perceber porque surgem, será mesmo que a pessoa mudou ou o meu estado de sonolência/cansaço/irritação é que não me permite vê-la da mesma maneira?

2- Conversem, conversem e conversem!

Claro que para as mulheres isto é mais fácil (um dia venho contar-vos porquê), mas existem timings em que falar se torna mais fácil, tentem encontrá-los e, sem apontar dedos e culpar ninguém, procurem dizer apenas o que sentem.

3- Partilhem, se possível, com alguém que vos aceite.

Por vezes, quando não exprimimos o que sentimos, nem partilhamos a nossa visão sobre as situações, tudo parece mais negro. Damos por nós a achar que não existem alternativas para o comportamento daquela pessoa (fez isto com aquela intenção, sem dúvida); este tipo de pensamento, conhecido por pensamento preto ou branco, leva-nos a ver as coisas de forma absoluta, quando por vezes existem outras justificações bastante razoáveis. Além disso, falarmos com outras pessoas ajuda-nos a perceber que como nós – numa fase menos boa – existem muitos.

4- Invistam em vocês como casal.

Confesso-vos que dei este passo com muitas reticências, só de me imaginar a ir jantar enquanto a minha filha, embora aos cuidados da excelente avó que tem, ficava a chorar, sem saber da mãe, partia-me o coração e trazia grandes sentimentos de culpa (que tipo de mãe és tu que faz isto à filha?). Na verdade, ela não só não chorou, como eu me diverti imenso. Durante o jantar quase que senti que estava a  conhecer o meu companheiro pela primeira vez; no meio de tudo esqueci-me de tantas características positivas que ele tem (se não há partilha de novos momentos, que por sua vez criam novas memórias, como podemos continuar a conhecer-nos?). Posto isto, apostem nestes momentos, mesmo que não tenham a minha sorte e o bebé chore durante 1 hora, acreditem que quando voltarem para junto dele se vão sentir pais mais felizes, revigorados e, por conseguinte, mais disponíveis para abraçar os desafios da parentalidade – vejam isto como um investimento.

5- Procurem ajuda profissional.

Se sentem que já tentaram de tudo e que a relação tende a piorar, procurem um psicólogo que faça terapia conjugal. Acreditem, imensas pessoas recorrem a este tipo de terapia, não tenham complexos. O que existe de errado em fazer de tudo para ficarmos com a pessoa que amamos?!

Espero que consigam continuar a aprender a ser pais, mas que possam, em simultâneo, reaprender a ser um casal, agora com mais papéis e desafios.

 

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A casa pode esperar, a minha filha não!

Foi facílimo escrever este título, saiu naturalmente, sem precisar de pensar muito. Contudo, posso-vos dizer que foi das aprendizagens mais duras que fiz.

Como se não fosse suficientemente exigente ser boa mãe, companheira, irmã, filha, amiga, entre outros, ainda esperam que sejamos excelentes donas de casa (às vezes não são os outros, somos nós).

No meio das horas a dar de mamar ou a preparar refeições com o equilíbrio perfeito de nutrientes e sabor, a mudar fraldas, a dar banho, a lutar para pôr o soro, a inventar brincadeiras super giras em que fazemos vozes e caras que até aí desconhecíamos ser capazes de fazer, a pensar nas melhores maneiras de estimular o seu desenvolvimento cognitivo e motor, a dar mimo, a embalá-los, a embalá-los e a embalá-los (para captar o número de horas que passamos nisto acho que tinha de escrever esta palavra pelo menos mais 52 vezes), ainda pensamos ou fazem-nos pensar que temos de ter a casa impecável, como se ao final do dia fosse aparecer aquele senhor do anúncio que passa uma luva branca no móvel para verificar se existem resíduos de pó.

Talvez algumas pessoas entrem em nossa casa e pensem  que “esta esteve o dia todo em casa e não fez quase nada“. Que “a maternidade a deixou desleixada“. Que “a Dona Maria da Luz tinha 5 filhos, vivia sem água potável e mesmo assim tinha  a casa sempre a brilhar“. Na verdade, pouco importa.

Lá em casa a felicidade mede-se pelo brilho dos olhos da minha filha, não pelo brilho do chão. Essa é a prioridade, a nossa missão!

Se isto não chega, vamos a factos!

Já alguma vez pensaram na duração do ciclo de vida de um filho? Imaginem um gráfico em que o número de horas de convívio começa bem lá em cima, mas depois disso vai descendo gradualmente até chegar à adolescência, altura em que desce a pique por, naturalmente, os pares (amigos, colegas, namoricos) passarem a ser prioridade.

Ainda que actualmente os jovens adultos vivam mais tempo com os pais, acabam por passar pouco tempo em casa. Bem espremido, isto talvez nos dê um total de 25 a 30 anos de convívio diário, sendo que apenas  12 ou 14 desses anos – na melhor das hipóteses – são de grande contacto; depois disso claro que continua a existir proximidade, mas não nos mesmos moldes.

Nessa altura, sabem quem é que estará à vossa espera? As tarefas de casa!

Essas vão conviver connosco até ao final dos nossos dias. Teremos montes e montes de tempo para elas. Até demasiado, e contrariamente ao que acontece com os nossos filhos, estas não se sentirão pouco amadas.

Ainda que por vezes te possa custar olhar para a roupa por passar, para a loiça do almoço por lavar, para aquele cotão no cantinho da porta que está sempre a aparecer lembra-te que é uma fase.

Acredito que a maternidade exija que façamos esta aprendizagem de viver feliz no meio do caos.

Mais para a frente terás milhões de horas para investir em ti enquanto dona de casa para andar a esfregar os cantos da banheira com uma escova de dentes.

A casa não sente a tua falta, não chora por ti, não vai um dia, dizer em voz alta que lhe proporcionaste uma excelente infância, não vai cuidar de ti quando um dia precisares.

Estás a investir em ti enquanto mãe, no teu bebé que precisa de tanto de ti para se sentir amado. Estás a construir uma relação sólida (vinculação) que determinará o futuro do teu filho de uma maneira que talvez nem antecipes. Estudos mostram que o vinculo dos pais com a criança condiciona a relação que esta irá estabelecer em adulto com os outros. Como irá lidar com adversidades, e moldará as expectativas relativamente ao mundo. Se é um lugar que nos acolhe cheio de potencialidades, ou um lugar assustador, recheado de obstáculos.

No fundo, diariamente ajudas alguém a construir-se, a descobrir-se e a descobrir o mundo, vives com o futuro nas mãos. Em relação ao resto das tarefas, amanhã também é dia! A casa pode esperar, a minha filha não!

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